Dostoiévski
Só me interessa a treva. Seja diante de pessoas ou de obras de arte, minha expectativa e minha procura se dão em função da presença de treva ali: uma cicatriz no pulso da cena final do filme, um traço de humor peculiar aos iniciados na miséria, um verso impudico transgredindo um poema que parecia ser santo, frases ditas ou não ditas que se ouvem dizer por aí, em alguma distraída entrelinha. Sinais de treva, eu procuro.
Ler Dostoiévski me enche de satisfação porque seus personagens são tão desgraçados e miseráveis quanto se pode ser; suprem perfeitamente as minhas expectativas. Eles são Humanos segundo meu conceito pessoal de humanidade, que felizmente não é só meu, mas ao mesmo tempo não é o do vulgo. Fato é que diante de Dostoiévski sinto-me espiritualmente em casa, e cada linha sua me preenche com amor e profundo prazer estético. É o prosador ideal. Não preciso conhecer mais nenhum autor para ter certeza de que Dostoiévski é, num certo sentido muito específico, o meu Ideal de literatura.
Muitas pessoas (aqui começo a encolerizar-me) conseguem passar por Dostoiévski e sair limpas, intocadas, tão asseadas quanto antes. Pior é que não raro ousam até proclamar belo o horrível presente ali — elogiam a sujeita, a má sorte, os maus tratos. Mas apenas da boca para fora — do seu sensato e asseado senso estético para fora! Sendo que no fundo, na realidade, eles não participaram do essencial do livro, nunca estiveram em sintonia com a única, a inconfundível freqüência da Penúria. Lêem, e decerto admiram aquelas linhas tão seguras de si, tão bem articuladas; e o conteúdo, ora, o que mais se pode dizer, é de primeira, é genuína Literatura!
Ha-ha-ha! Literatura! Eles acham que é literatura! Gostam, compreendem, interpretam, sabendo que é ficção da melhor que há no mercado, é! — E não parece, por um segundo sequer, lhes passar pela cabeça que com Dostoiévski eles estejam diante da vida, sim, da vida não como ela é, não a vida ficcionalizada, mas a vida mesmo, tão viva quanto eu ou você que me lê e as coisas que nos acontecem.
Meu Deus, ler Dostoiévski me ajuda tanto a continuar existindo, me ensina tanto sobre mim, me faz pensar tanto sobre o mundo e as outras pessoas, e além de pensamentos me causa delírios, que não raro são mais intelectualmente férteis do que as idéias claras! Quando termino de ler um livro deste autor, sinto vontade de conversar sobre a Miséria e a Desgraça, sobre o Amor muitas vezes, porém, terrivelmente, todos os interlocutores que encontro são alunos de Letras engravatados discutindo Dostoiévski à luz da sua última aula de Teoria Literária na USP, embolando-o com um tal de Bakhtin who-the-fuck, e nada, absolutamente nada do real conteúdo do livro!
Pergunto-me, e imediatamente me respondo que não, essas pessoas nunca conheceram a Miséria dostoievskiana, portanto é lógico não poderem reconhecê-la. Para comprová-lo basta puxar conversa sobre algum livro do autor: eles fazem a síntese do enredo e são inclusive capazes de recitar de cor longos trechos do texto; traçam interpretações filosóficas, sociológicas, históricas, epistemológico-hidráulicas (sic) — corretamente recortadas de livros respeitáveis e corretos; quando não, são meros esboços tortos improvisados à força de dizer algo inteligente sobre uma obra de valor universal. Pois eles sabem, eles têm certeza de que se trata de uma obra valorosíssima — mérito de Dostoiévski, que, mesmo àqueles que o não compreendem, consegue intimidar com suas Mandíbulas Doentias; acrescido de que há ainda, nesses casos, a forte influência dos Professores sobre a apatia dos pupilos acéfalos, que neuroticamente repetem, repetem e não se cansam de repetir valores por eles deglutidos crus e a seco, e aliás sem dor nenhuma.
Me é, enfim, profundamente — profundamente! — irritante ver Dostoiévski boiar como um pedaço de carne objetiva e compreensível no caldo ralo desses humanos detestáveis. Não tenho pudor em dizê-lo, não sou humanista nem sou qualquer coisa: simplesmente há humanos detestáveis, em quem não há treva mas o oposto dela: e o oposto da treva é a mediocridade, é a anti-humanidade segundo o meu conceito de humano. Que felizmente não é só meu, é também o de Dostoiévski, de Clarice Lispector, de Hermann Hesse, de Fernando Pessoa, do Diogo, do Vitor Nina, do Leone, do Paulo. Preciso conter minha indignação. Preciso continuar minha leitura de “Crime e Castigo” e esquecer todas as besteiras que não pude evitar ouvir esses anos todos, sem poder contestá-las pois não lera o livro.
Dostoiévski está protegido, muita gente o compreende. A treva se infiltra na higiene do mundo, o esgoto transborda do subsolo e lambuza as calçadas (nós queremos que o esgoto transborde e lambuze as calçadas!). Nós vamos sobreviver, vai ficar tudo bem.
Confinamento
Borges – Laberinto
No habrá nunca una puerta. Estás adentro
y el alcázar abarca el universo
y no tiene ni anverso ni reverso
ni externo muro ni secreto centro.
No esperes que el rigor de tu camino
que tercamente se bifurca en otro,
que tercamente se bifurca en otro,
tendrá fin. Es de hierro tu destino
como tu juez. No aguardes la embestida
del toro que es un hombre y cuya extraña
forma plural da horror a la maraña
de interminable piedra entristejida.
No existe. Nada esperes. Ni siquiera
en el negro crepúsculo la fiera.
Realmente fazer Letras não vale nem significa nada
Sete dias enclausurada e quinze páginas espaço simples depois… (Em trabalho para professores líricos e sensíveis, como é o caso, pode-se e deve-se descer a mão na metáfora piegas e na digressão… piegas.)
***
(…)
Álvaro de Campos (ou, antes, o eu-lírico do seu poema) vive em um estado de espírito aparentado a um Nirvana sem paz: não se identifica com o mundo ao seu redor, e o mundo dentro dele, que é finalmente a sua realidade mais imediata, não lhe inspira confiança, não lhe inspira em sentido nenhum; sua subjetividade é como a casa em que ele mora, mas uma casa desagradável, como todo o mais; e sucede que fora dessa casa não existem senão alucinações batendo-lhe à porta, que ele recebe às vezes, esforçando-se para aceitá-las, mas o esforço é inútil.
“Nirvana sem paz” porque, se se fosse nomear a realidade de Campos, um nome fidedigno era Nada — um nada absolutamente desconcertante. E é sobre esse paradoxo que se parece construir a sua poesia.
(…)
Porém, o fato de o mundo e as pessoas não se lhe afigurarem realidades convincentes e interessantes não implica que ele se invoque a si mesmo como o oposto disso. Pelo contrário. Num mundo em que nada é nada, quem julga ser alguma coisa e tem o apoio das convenções vence as provas práticas. Assim, a “gente insípida” é ao mesmo tempo as “coisas fortes”, pois lidera o mundo.
(…)
***
- Vamos dormir sem droga hoje.
- Tá.
- Mas vamos MESMO, hein?
- Tá, eu sei.
- De verdade?
- ÉÉÉ.
- Tem certeza..?…
- Putz. Não começa.
- Tá. Vamos dormir, né?
- Vamos.
- Então vamos.
- Vamos. (!!!)
Fala da Maníaca
Me deixa viver nesse espaço de exagero.
Que eu seja a Mulher Maníaca.
Que eu não consiga consentir ao fim das coisas
e insista em exercitá-las à exaustão.
Que, à beira de um ataque de nervos,
eu pule para dentro em histeria
soltando risos grossos e burros, risos
verdadeiramente grossos e burros.
Tocar a chama de uma vela com a minha língua,
eis como posso ser útil.
Não sou esquizofrênica, sendo maníaca.
Já sem qualquer depressão,
exijo que as coisas tomem uma ordem muito específica,
ou meus sentidos se implodem.
(Os sonetos do século XXI não têm métrica ou rima.
A psicanálise liquidou com as formas clássicas.
E os Modernos juram que a revolução foi estética.)
Estrofe de um poema não escrito
…
Com língua inventada por louco
se dizem palavras mais belas
do que com Latim repetido
por triste homem-dicionário.
…
Um comentário & a Sina do Ópio
Não faço idéia de por que esse comentário ficou até agora barrado na minha caixa de spams:
Estudante de Filosofia said,
May 23, 2009 at 12:42 pm · Edit
Talvez o estudante de filosofia também te ame, talvez também cresçam árvores pelos muros.
Talvez haja vida neles.
Também não sei quem seja o comentador. Não se trata do Estudante de Filosofia destinatário do meu poema, certamente. Em todo caso, acho que foi bom essas palavras de tom gentil só me terem sido reveladas agora, num momento em que eu estava tão carente de palavras gentis. Mas ao mesmo tempo a existência imaterial de pessoas com quem me comunico apenas abstratamente me confunde. Eu acredito nesses contatos, pois sou menos sã do que louca. O ideal seria então que não me aparecessem tais palavras de tom gentil do fundo de uma noite já dada como perdida — para não reforçar a loucura.
Mas agora é tarde.
***
Uma breve palavra sobre Alprazolam.
Eu hei de compor um hino a Alprazolam. Eu uso (ou, para falar como De Quincey, eu como) Alprazolam porque não se toma mais ópio nos dias de hoje. Ao longo da História os homens comeram ópio, sorveram vinho, tragaram haxixe, e conformemente tomam hoje comprimidos de exaustão como Alprazolam, pois do tanto de nós que se desintegra na concorrência das eras fica esse cerne meio histérico, sequioso do Nada, que faz continuamente a mente dos homens idealizar o Nirvana e crer alcançá-lo.
Um dia hei de compor um hino a Alprazolam – algum subproduto de Opiário…
Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.
(…)
Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.
(Álvaro de Campos – “Opiário”)
Momentos distintos em “Alteridade”
Primeiro momento: Idílio ou Reconhecimento ou Encontro ou Miragem
— Tu és a minha esperança de felicidade e cada dia que passa eu te quero mais, com perdida volúpia, com desesperação e angústia…
(Manuel Bandeira – não somente o que se diz nesse trecho, mas principalmente o sentimento presente aqui, que nós conhecemos porque lemos a Epígrafe do livro “Carnaval” e todos os poemas desse livro belíssimo)
Segundo momento: Separação ou Desalojamento ou sinônimos
(…) Estrangeiro aqui como em toda a parte,
Casual na vida como na alma,
Fantasma a errar em salas de recordações,
Ao ruído dos ratos e das tábuas que rangem
No castelo maldito de ter que viver…
Outra vez te revejo,
Sombra que passa através das sombras, e brilha
Um momento a uma luz fúnebre desconhecida,
E entra na noite como um rastro de barco se perde
Na água que deixa de se ouvir…
Outra vez te revejo,
Mas, ai, a mim não me revejo!
Partiu-se o espelho mágico em que me revia idêntico,
E em cada fragmento fatídico vejo só um bocado de mim —
Um bocado de ti e de mim!…
(Álvaro de Campos)
E assim, de modos diversos que se sucedem e se anteparam, se nos afigura o Outro – essa figura mítica que nos faz sentir ora nítidos, ora borrões em desexistência.
O Eu não é mais fatídico que o Outro. O Outro – é ele quem pode tudo.
In Media Res
Poema escrito em março de 2008. Já foi postado aqui, mas fiquei com vontade de dizê-lo de novo:
***
Talvez a certeza cega de um amanhã
é que me permite, assim tão seguramente,
repousar o livro
que conta a história de nossas vidas
sobre a remota escrivaninha:
A segurança de termos tempo
ainda para contemplar
nossa história sem sequer começo.
Certamente estaremos velhos
e mudos no final do livro,
Que repousa porque temos tempo
e eu já estou tão cansada, meu filho.
Tu não morrerás (que, antes,
se extinga o silêncio, antes,
se cale o silêncio, antes, que ensurdeça);
Eu sei que serei feliz, e tu, meu protagonista.
Mas, antes, não houvesse história.
Toda eternidade é efêmera.
O fim das coisas não conta
mais do que têm verdade as entrelinhas
Dos grandes acontecimentos.
O silêncio que nos antecede
é aquele mesmo de quando
da morte da primeira estrela,
aquela que vês até hoje.
Descansemos mais um pouco.
Esse tempo que nos separa
foi feito para nos amarmos
ainda mais e mais ardentemente
do que quando formos eternos.
Enquanto isso, sublime, o teu sono
marca a página do livro, aquela
onde a vida espera.
(Mas nunca para sempre).
Saudade no ônibus
O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria…
(…)
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra…
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômala e noctâmbula!
- Manuel Bandeira, “Pierrette”
***
Eu amo um estudante de Filosofia.
Quem mais eu amaria
senão um estudante de Filosofia?
Minha existência sombria,
minha natureza vadia —
tudo o que fui e sou se alia
à imagem do estudante de Filosofia,
esse negro estudante de Filosofia
que, envolto em sômbrea e lúcida melancolia,
emparelha-se comigo numa simetria
qual formasse-nos idêntica geometria
à que conjuga a noite e o dia —
A brasa que une em cinzas a noite e o dia,
a lágrima que escorre dessa cinza fria.
Bonança
Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim, tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar elétrico
que vazasse nos prédios
e banhasse a Lagoa
até São Conrado
e ganhasse as Canoas
aqui do outro lado
- Adriana Calcanhotto, “Âmbar”
***
O corpo depois que chora fica feito cidade na bonança,
depois de tempestade.
Manso. As fibras mais elétricas.
A alma parece que fica encolhida,
como um tapete ensopado ou um pano de chão
molhado de água suja.
A pele da alma ganha um aveludado
parado, um magnetismo estático
depois que passa o choro, essa espécie de íntima chuva.
Eu seria incapaz de produzir um som mais alto que minha tristeza.
Meus dois olhos inchados enxergam um mundo mais úmido.
O choro deságua na alma essa bonança em ondas,
que se afigura em texturas na sensação que o nosso corpo tem do que somos.
Textura no que vejo. Textura no que sinto. Textura no que sou de fora para dentro.
A lágrima passou, levou, lavou.
Mas não, não mexeu com o futuro.
O futuro continua lá, irremissível, abrupto.
Essa textura de paz, engodo de bonança,
em verdade é só que o choro subverte a tristeza
em um discurso mais fluido.
Amor
Poema escrito em novembro de 2007:
***
Um grito de céu sem cor
entra pela janela sem fazer alarde.
É com meus olhos que o ouço,
degusto-o se me tateia a derme.
Excito-me — ele percebe;
transveste-se então de fim de tarde.
Consegue haver-me inerme
e quando seu dom de noite vem
solta um urro estrelado e me tem,
nem a lua soberba transcende-nos.
É beleza em intensa e pura cor.
Sabe que não resisto a sentir dor,
peço que venha sempre e me alarme.
Ele obedece como brincasse com fogo,
veio hoje e amanhã virá de novo,
aura de firmamento e mímica de estrela —
Agora está, místico, alvorecendo… —
Projétil de luz na retina,
ele rouba meu silêncio e reintegra-se:
a dimensão do meu sofrimento.
Amor: estado
“Se ele souber a treva, ele sabe de tudo.”
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. — Manuel Bandeira
Tese
Após virar e revirar, forçando-lhe até os avessos, a Estrela da Vida Inteira, concluo:
Manuel Bandeira não escreveu sobre guerra.