Epígrafe
Stupid pupil, it has to take everything in.
- Sylvia Plath, “Tulips”
As enfermeiras acabam sendo mesmo um ponto de suporte; são cuidado e alívio que vêm predeterminadamente de hora em hora, de modo que esperá-las torna-se parte dos jogos característicos da cama de hospital. E trazem drogas, sim, e têm mãos caridosas, e eu arriscaria ainda dizer que têm corações caridosos, que se não os têm desde o início por fim desenvolvem-nos do trabalhar com a dor e a fragilidade dos outros.
Mas a brancura desmesurável dos hospitais já não é tanto assim.
Eu despertei numa sala iluminada, onde se falava muito e em voz baixa, provocando daqueles burburinhos agudos, insuportáveis – insuportáveis sobretudo se o seu corpo está sob o efeito de pesados anestésicos.
Estou tentando escrever aqui sobre o efeito dos anestésicos.
A sala era iluminada mas não era branca: a luz intensa tinha cor de cegueira, como uma maldição; e, preenchendo o pesadelo, os micro-barulhos de vozes que eu desconhecia, a intensidade violenta da luz vindo de todos os lugares, o não ter consciência do meu corpo. Os anestésicos anestesiam toda consciência tátil, e o não sentir a matéria, ou antes o não se sentir matéria, eis o que leva finalmente à inconsciência generalizada quanto à condição do Vivo.
Eu pedi cigarros. Primeiro, abri os olhos que não se abriram. “Mas eu estou abrindo os olhos” – mas eles não se abriam. Havia apenas o burburinho e o desejo involuntário de enxergar. Quando finalmente consegui abrir os olhos compreendi: que estava feito, que havia acabado. Ao incidir claridade sobre meus olhos, tive parcial consciência do que estava acontecendo, do que tinha acontecido. Mas não conseguia recuperar meu corpo. Havia e não havia luz.
Uma enfermeira e um enfermeiro perceberam-me desperta e vieram ao meu socorro. Então eu pedi cigarros. Por favor, me dê cigarros. Preciso fumar um cigarro.
Então me levaram de volta para o quarto, onde havia pouca luz; era amarelo. Eu preferia as cortinas fechadas e gritava muito alto se alguém insinuava abri-las. Sentia muita fome. Mesmo quando em dor, sentia fome. O anestesista era um senhor baixo, de movimentos curtos e rápidos, um japonês. Visitou-me à tarde, no primeiro dia; perguntou se eu tinha dores, eu disse que não: que não sentia nada. E não sentia mesmo. Ainda estava sob o efeito dos anestésicos que me tinham sido aplicados pela manhã. Por isso, no primeiro dia, não fui capaz senão de ter fome e de estar deslumbrada com as teias de fios de plástico e tubos que se inflavam e desinflavam, em verdadeiro movimento de respiração. Alguns terminavam dentro de minhas veias, que, segundo as enfermeiras, são escassas e difíceis de pegar. Eu era parte integrante daquele ecossistema de plástico e borracha. Meu metabolismo era o mesmo que dos fios e tubos respirantes.
Mas na madrugada do mesmo primeiro dia – eu não entendi! – recomeçaram a cortar meu corpo. Sentia as facas cirúrgicas partirem desde o final de minha coluna até meus ombros e meu peito. Esses eram os cortes mais profundos, mas havia também os que ofendiam perifericamente pernas e braços, até que, por algum avesso de misericórdia, sofri um golpe no pescoço. Eram muitas feridas ao mesmo tempo, eram cortes finos, outros brutos, grossos, e talvez o único modo de mensurar a violência daquela dor fosse apreender a agudeza de meus gritos.
Uma enfermeira o fez. Estava lá quando as facas invisíveis começaram a me cortar e lá ficou até o amanhecer, embora seu turno compreendesse apenas a madrugada. Pela manhã, havia pelo menos três enfermeiros, mais o anestesista e minha mãe, no quarto. Ele avisara: quando começar a dor, me chame. Foi o que fizeram quando empalideci, os olhos arregalados, a boca aberta, estática, e na garganta o coágulo do meu primeiro grito de dor. Minha mãe ligou uma, duas, três vezes, até que o anestesista veio. Com uma seringa e ampolas na mão. Com seu jeito apressado, falava, se justificava, me acalmava, me dizia que era isso mesmo, que logo estaria tudo bem. Chamou atenção ao tubo laranja colado ao meu braço esquerdo, que se comunicava com um catéter enfiado em minhas costas, abaixo de minha nuca: e que terminava em minha medula espinhal. Disse que previra a dor do pós-operatório a partir da natureza da operação, e estrategicamente deixara aqueles canais ali, por onde injetaria alívio quando começasse a dor: morfina.
Era silêncio como fosse coisa que suplanta uma mais agitada. Era frio como era sensação de coisa calma, e simplesmente era teor de redenção.Um ponto neutro abaixo de minha nuca, que se foi liquidamente entranhando nos poros dos meus sentidos, uma palavra de fé, como uma manta, a se desenrolar pelo meu dorso, meus membros, minhas feridas todas.
Assim a experiência se repetiu pelos três dias seguintes. Aquela enfermeira morena, com olhos de água turva, piedosos, não saía mais do pé do meu leito; fora tocada pela presença do sobrehumano. Saciar a fome era uma alegria que se repetia, diariamente, cinco vezes. Contudo, durante os banhos era normal que eu sofresse desmaios.
André said,
October 22, 2007 at 1:09 am
Moça, você não imagina o quanto fico feliz em ver que você está escrevendo!!! Muito muito feliz eu fico, mesmo! Isso porque você tinha comentado comigo sobre como tinha se tornado pra você o ato de tentar escrever; e mesmo assim você persiste, continua escrevendo. E o faz porque valhe a pena, e como vale! Pra nós, como vale! Pra você, de algum jeito, também tem de valer.
Isso aí, moça Lorena. Hoje vou para mais uma tentativa de perseguição sonífera – só que com uma bela injeção de ânimo; e como eu estava precisando, nem que fosse uma só gota! mas senti sucessivas doses!
Lorena, continue escrevendo, pensando, trabalhando o sentir e escrevendo! Por nós. mesmo se for o mais sofrível dos sofreres para você, faça por nós! Nós, que lemos, precisamos muito e nos valhe muito. Abraços!
Jazz said,
October 23, 2007 at 4:04 pm
Fiquei chocada com um texto tão bem (d)escrito.
Obrigada, mais uma vez, por me deixar reler-te.
tuto said,
November 7, 2007 at 3:00 am
sei… acho que sei (d)isso, era o q procurava, acho.