Poemas tapa-buraco
Acordando
Acordo com meu olho empoeirado.
Meu cabelo de fumaça cheio de sono encardido.
Acordo com a pele do rosto amassada,
como quem tivesse dormido em banco de praça.
Acordo com meu coração vazio.
Acordo com meu coração vazio
e as unhas desgrenhadas dão feição caótica a minha parecença.
Pareço um arrepio – dos de dar susto.
Tenho um globo negro dentro de cada olho,
duas mãos, dois pés, algumas coisas sobrando e outras pela metade.
Olho para os lados e o criado-mudo
é o lixeiro preparando a rua para a sujeira dos que vêm.
Suporta um relógio, o telefone, a carta que recebi há um mês
e um porta-retratos vazio.
Olhando-o, lembro de que tenho o coração vazio.
Acordo – com meu coração vazio.
O olho rubro, empoeirado; as mãos elípticas,
antes elásticas, arrancam meus cílios e rasgam os meus cabelos.
Rolo prum lado, caio da cama.
Nada mais que um pombo pousado na minha barriga.
*
Amor
Um grito de céu sem cor
Entra pela janela sem fazer alarde.
É com meus olhos que o ouço,
Degusto-o se me tateia a derme.
Excito-me – ele percebe;
Transveste-se então de fim de tarde.
Consegue haver-me inerme
E quando seu dom de noite vem
Solta um urro estrelado e me tem,
Nem a lua soberba transcende-nos.
É natureza em sua mais pura cor.
Sabe que não resisto a sentir dor,
Peço que venha sempre e me alarme.
Ele obedece como brincasse com fogo,
Veio hoje e amanhã virá de novo,
Aura de firmamento e mímica de estrela…
Agora está, místico, alvorecendo…
Projétil de luz na retina,
Ele rouba meu silêncio e reintegra-se:
A dimensão do meu sofrimento.
Despedida
A tua menina partiu numa tarde sem memória.
Ventava e em seu rosto corria um sorriso de horror e de fúria.
É certo que temia o longo caminho a sua frente,
Mas ela partiu ainda assim, sem olhar para trás,
Sem deixar sequer um bilhete de adeus.
A tua menina foi minguando no horizonte
E da janela pequenina por que eu a observava
Foi mais triste perdê-la,
O céu acima dela era maior do que eu enxergava,
O medo que ela sentia não me chegou por inteiro,
Enquanto eu a via sumir só a voz rouca do vento falava.
A tua menina caminhou derradeira
Até a tarde desaparecer.
Acesa, a madrugada amarela…
Acesa, a madrugada amarela transpira.
Uma garoa, com poderes de ser plena, cai,
Mas não consegue ser-se além de desnutridos respingos.
A essas horas muita gente dorme; outras…
Pernoito. Exaurida pela insônia, cambaleio
Passos tortos pela malha da existência
Querendo não crer que nasci.
Um silêncio cirúrgico me opera os escombros…
Todos os objetos do quarto me devoram
- Posso senti-los, talhados em ferro, madeira ou acrílico,
Crescerem dentes pontiagudos, sanguinolentos pela carne
Dos como eu, semi-apodrecidos!
Um pânico desnaturado me altera. Começo
A girar pelo quarto e, girando, para fora dali me distancio,
Tenciono fugir do silêncio em todos os lugares,
Mas não há refúgio! Presenças inertes
Pairam, como assombrações, são verdades ininteligíveis
- E essa tristeza no cio!
Em todos os cômodos da casa ainda e sempre a mesma
Natureza estática me espreita, me espera!
Ponho as mãos na cabeça, cabelos saltando dos poros,
E meus olhos já esguicham da má água compulsivamente…
No escuro da mente – presença; por fora o corpo nu desova
Erupções roxas, podres. É quando ouço uma voz:
“Não existe fuga da prisão eterna de si mesmo,
Existe a pena a qual ser paga e o resto é pó.
A qualquer lugar que fores, os olhos te seguem,
Das panteras do silêncio andando a esmo
Pela tua alma transeunte, dando nós.
Se te ao acaso rebelares, neste caos ninguém
Se importa, aqui não há coordenadores,
Apenas espelhos sentinelas como guardas,
Candeeiros lassos, moribundos junto à porta
E a tua consciência pelos corredores.”
Sem Título
* O poema a seguir data do início de 2006 e faz parte de uma série de poemas sobre insônia que não foram pensados juntos, mas que, inevitavelmente, dialogam entre si e até mesmo se repetem. Pretendo postar alguns conjuntamente com outros, também pouco recentes, sobre outros temas, que estou passando para o computador. Há uma dificuldade enorme nisso, quanto a discernir os que funcionam dos que quase funcionam dos que são lixo apenas. Por favor, opinem, ajudem-me.
“And it just feels like spinning plates
My body is floating down the moody river…”
- Radiohead
Meu corpo desliza pelo rio temperamental,
o rio da morte, egípcio, profundo de riscos;
desse delírio não conseguirei despertar.
A cama hoje amanheceu mais dura do que
de costume, e magnetizada;
minhas pernas marcadas em roxo se encontram
em estado de completa letargia.
Meu corpo censura os estímulos
da luz matinal queimando-me janela adentro para despertar.
Ainda há marcas nas paredes das mãos que, sonâmbulas,
a molestar o escuro ontem à noite se achavam perdidas…
(sempre recorro às mãos fazendo sombra
nas paredes, quando outra paisagem falta que distraia
meu sono interrompido.)
Já é manhã, mas minhas pernas, minhas córneas,
minhas mãos ainda pernoitam pelo rio das horas longas,
longas, longas… O rio de desejos contidos,
comprimidos sob a pálpebra sonâmbula,
o rio que escorre em fio de sangue pelo rosto anêmico,
o rio que jorra sem lavar por dentro,
o rio que emerge quando a noite jorra.
Estou paralisada, imersa num delírio estanque,
nada ao meu redor se move (só a luz cada vez mais
alta da manhã que desce); estou só e
não conseguirei despertar.
A problemática do poema & Sonetoterapia
Um poema para as emoções imprensadas
entre a agonia do peito e a agonia do peito.
Um poema por não haver mais nada.
Um poema porque morrer sem tê-lo escrito é impossível.
Um poema para que se morra de uma vez, portanto.
Porque não há mais nada; porque secou lá dentro.
Um poema para cansar os minutos e o infinito.
Um poema feio, uma tristeza de poema
(Melhor teria sido morrer sem tê-lo escrito).
Um poema entre a hora do banho e o pôr-do-sol.
Um poema entre o jantar em família e a oração.
Um poema entre o sono e a insônia;
Entre acordar para a noite, sozinho, e morrer
Em sonho para, infelicíssimo, acordar ainda sozinho
Dentro da noite, ainda vivo, ainda vivo.
Um poema entre a vida e a insânia.
Um poema entre a realidade e o sonho.
Um poema entre a agonia do peito, a inevitabilidade da vida,
O atraso da morte, a estupidez do sonho, a tepidez das noites
De lua, a solidão e o abandono, a inexplicabilidade da vida,
O medo da morte, a lucidez do sonho, a escuridão das noites
De lua, o amor e o sofrimento eterno a partir dele,
Os anos de inocência, a luz fresca da infância perdida para sempre,
Todas as palavras nunca ditas – e talvez tivessem sido belas –,
A alegria de ter recebido as cartas que hoje nos fazem chorar.
Entre todas essas coisas, um poema.
Um poema absolutamente inútil diante de todas essas coisas.
*
Plantei minha semente em ventre seco.
Cravei meus dentes em carne de pedra.
Pintei retrato com tinta invisível.
Amei p’ra sempre o artista de cinema.
Dediquei meu sorriso a gente amiga.
Compus canções de amor à luz de uns olhos
Que me corresponderam com sorrisos.
Lavei meus olhos com lágrima viva.
Não sei que fiz que nada em mim se anima.
Sempre o que faço é coisa a ser não feita.
É morte a vida inscrita em meu destino.
Tenho tal sorte que tudo se encontra
Quando o que vem a ser é o que desejo.
Viver é uma alegria e um privilégio.
* Post Scriptum: Quando tudo mais falhar, escreva um soneto. É terapêutico.