Sem Título

November 13, 2007 at 11:14 pm (Uncategorized)

* O poema a seguir data do início de 2006 e faz parte de uma série de poemas sobre insônia que não foram pensados juntos, mas que, inevitavelmente, dialogam entre si e até mesmo se repetem. Pretendo postar alguns conjuntamente com outros, também pouco recentes, sobre outros temas, que estou passando para o computador. Há uma dificuldade enorme nisso, quanto a discernir os que funcionam dos que quase funcionam dos que são lixo apenas. Por favor, opinem, ajudem-me.

“And it just feels like spinning plates
My body is floating down the moody river…”

- Radiohead

Meu corpo desliza pelo rio temperamental,
o rio da morte, egípcio, profundo de riscos;
desse delírio não conseguirei despertar.
A cama hoje amanheceu mais dura do que
de costume, e magnetizada;
minhas pernas marcadas em roxo se encontram
em estado de completa letargia.

Meu corpo censura os estímulos
da luz matinal queimando-me janela adentro para despertar.
Ainda há marcas nas paredes das mãos que, sonâmbulas,
a molestar o escuro ontem à noite se achavam perdidas…
(sempre recorro às mãos fazendo sombra
nas paredes, quando outra paisagem falta que distraia
meu sono interrompido.)

Já é manhã, mas minhas pernas, minhas córneas,
minhas mãos ainda pernoitam pelo rio das horas longas,
longas, longas… O rio de desejos contidos,
comprimidos sob a pálpebra sonâmbula,
o rio que escorre em fio de sangue pelo rosto anêmico,
o rio que jorra sem lavar por dentro,
o rio que emerge quando a noite jorra.

Estou paralisada, imersa num delírio estanque,
nada ao meu redor se move (só a luz cada vez mais
alta da manhã que desce); estou só e
não conseguirei despertar.

1 Comment

  1. Vinícius said,

    Gostei muito da imagem de usar as mãos, fazendo figuras na parede; é o tipo de coisa que fornece um momento a mais contra o tédio. O rio também poderia ser uma esperança como essa, com seu fluxo interminável, mas é muito pouco estar na corrente do rio: no seu poema, o rio permanece parado, sem remos ou margens. O rio estático, como em Dante, é muito forte para ilustrar o sofrimento. À medida que se chega mais perto de Lúcifer no Inferno dantesco, o frio se torna intenso, e o próprio pranto é impedido, pois as lágrimas se congelam ao redor dos olhos. As almas, presas em um rio congelado, nada podem fazer. Mais ou menos como neste rio egípcio.

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