Acesa, a madrugada amarela…

November 22, 2007 at 11:53 pm (Uncategorized)

Acesa, a madrugada amarela transpira.
Uma garoa, com poderes de ser plena, cai,
Mas não consegue ser-se além de desnutridos respingos.
A essas horas muita gente dorme; outras…

Pernoito. Exaurida pela insônia, cambaleio
Passos tortos pela malha da existência
Querendo não crer que nasci.
Um silêncio cirúrgico me opera os escombros…

Todos os objetos do quarto me devoram
- Posso senti-los, talhados em ferro, madeira ou acrílico,
Crescerem dentes pontiagudos, sanguinolentos pela carne
Dos como eu, semi-apodrecidos!

Um pânico desnaturado me altera. Começo
A girar pelo quarto e, girando, para fora dali me distancio,
Tenciono fugir do silêncio em todos os lugares,
Mas não há refúgio! Presenças inertes

Pairam, como assombrações, são verdades ininteligíveis
- E essa tristeza no cio!
Em todos os cômodos da casa ainda e sempre a mesma
Natureza estática me espreita, me espera!

Ponho as mãos na cabeça, cabelos saltando dos poros,
E meus olhos já esguicham da má água compulsivamente…
No escuro da mente – presença; por fora o corpo nu desova
Erupções roxas, podres. É quando ouço uma voz:

“Não existe fuga da prisão eterna de si mesmo,
Existe a pena a qual ser paga e o resto é pó.
A qualquer lugar que fores, os olhos te seguem,
Das panteras do silêncio andando a esmo
Pela tua alma transeunte, dando nós.

Se te ao acaso rebelares, neste caos ninguém
Se importa, aqui não há coordenadores,
Apenas espelhos sentinelas como guardas,
Candeeiros lassos, moribundos junto à porta
E a tua consciência pelos corredores.”

3 Comments

  1. L.M. said,

    Ninguém gosta desse poema, mas eu gosto. Anabel também gostava.

    Mexi um pouco nele: uma palavra aqui, outra ali. Lembro que foi escrito durante uma noite de insônia, para descrever exatamente o que se passava. Tipicamente anabélico.

  2. tuto said,

    gosto de sabor soturno…
    Gostei do título sinestésico..
    do terror tenue…
    das palavras bem escolhidas
    da claustrofobia…
    e desse negocio de auto-coação
    tá bem do jeito que gosto…
    e como venho do nada, me considero ninguem (ridiculo mas é o que me veio)

  3. André said,

    hahaha
    ninguém gosta? são esses os que mais gosto. deve ser bem típico de um ignorante esse meu gosto. me lembra um pouco o primeiro poema. aquele em inglês.
    são os que me descopassam.

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