Acesa, a madrugada amarela…
Acesa, a madrugada amarela transpira.
Uma garoa, com poderes de ser plena, cai,
Mas não consegue ser-se além de desnutridos respingos.
A essas horas muita gente dorme; outras…
Pernoito. Exaurida pela insônia, cambaleio
Passos tortos pela malha da existência
Querendo não crer que nasci.
Um silêncio cirúrgico me opera os escombros…
Todos os objetos do quarto me devoram
- Posso senti-los, talhados em ferro, madeira ou acrílico,
Crescerem dentes pontiagudos, sanguinolentos pela carne
Dos como eu, semi-apodrecidos!
Um pânico desnaturado me altera. Começo
A girar pelo quarto e, girando, para fora dali me distancio,
Tenciono fugir do silêncio em todos os lugares,
Mas não há refúgio! Presenças inertes
Pairam, como assombrações, são verdades ininteligíveis
- E essa tristeza no cio!
Em todos os cômodos da casa ainda e sempre a mesma
Natureza estática me espreita, me espera!
Ponho as mãos na cabeça, cabelos saltando dos poros,
E meus olhos já esguicham da má água compulsivamente…
No escuro da mente – presença; por fora o corpo nu desova
Erupções roxas, podres. É quando ouço uma voz:
“Não existe fuga da prisão eterna de si mesmo,
Existe a pena a qual ser paga e o resto é pó.
A qualquer lugar que fores, os olhos te seguem,
Das panteras do silêncio andando a esmo
Pela tua alma transeunte, dando nós.
Se te ao acaso rebelares, neste caos ninguém
Se importa, aqui não há coordenadores,
Apenas espelhos sentinelas como guardas,
Candeeiros lassos, moribundos junto à porta
E a tua consciência pelos corredores.”
L.M. said,
November 23, 2007 at 12:02 am
Ninguém gosta desse poema, mas eu gosto. Anabel também gostava.
Mexi um pouco nele: uma palavra aqui, outra ali. Lembro que foi escrito durante uma noite de insônia, para descrever exatamente o que se passava. Tipicamente anabélico.
tuto said,
November 23, 2007 at 4:44 pm
gosto de sabor soturno…
Gostei do título sinestésico..
do terror tenue…
das palavras bem escolhidas
da claustrofobia…
e desse negocio de auto-coação
tá bem do jeito que gosto…
e como venho do nada, me considero ninguem (ridiculo mas é o que me veio)
André said,
December 7, 2007 at 7:48 pm
hahaha
ninguém gosta? são esses os que mais gosto. deve ser bem típico de um ignorante esse meu gosto. me lembra um pouco o primeiro poema. aquele em inglês.
são os que me descopassam.