Poemas tapa-buraco
Acordando
Acordo com meu olho empoeirado.
Meu cabelo de fumaça cheio de sono encardido.
Acordo com a pele do rosto amassada,
como quem tivesse dormido em banco de praça.
Acordo com meu coração vazio.
Acordo com meu coração vazio
e as unhas desgrenhadas dão feição caótica a minha parecença.
Pareço um arrepio – dos de dar susto.
Tenho um globo negro dentro de cada olho,
duas mãos, dois pés, algumas coisas sobrando e outras pela metade.
Olho para os lados e o criado-mudo
é o lixeiro preparando a rua para a sujeira dos que vêm.
Suporta um relógio, o telefone, a carta que recebi há um mês
e um porta-retratos vazio.
Olhando-o, lembro de que tenho o coração vazio.
Acordo – com meu coração vazio.
O olho rubro, empoeirado; as mãos elípticas,
antes elásticas, arrancam meus cílios e rasgam os meus cabelos.
Rolo prum lado, caio da cama.
Nada mais que um pombo pousado na minha barriga.
*
Amor
Um grito de céu sem cor
Entra pela janela sem fazer alarde.
É com meus olhos que o ouço,
Degusto-o se me tateia a derme.
Excito-me – ele percebe;
Transveste-se então de fim de tarde.
Consegue haver-me inerme
E quando seu dom de noite vem
Solta um urro estrelado e me tem,
Nem a lua soberba transcende-nos.
É natureza em sua mais pura cor.
Sabe que não resisto a sentir dor,
Peço que venha sempre e me alarme.
Ele obedece como brincasse com fogo,
Veio hoje e amanhã virá de novo,
Aura de firmamento e mímica de estrela…
Agora está, místico, alvorecendo…
Projétil de luz na retina,
Ele rouba meu silêncio e reintegra-se:
A dimensão do meu sofrimento.
Jazz said,
November 29, 2007 at 3:57 pm
A dor da solidão faz a gente ficar tão lírico, né? E em pessoas talentosas como você, dá nisso: poesia das melhores. Admiro-te.
doliveira said,
November 30, 2007 at 11:38 am
Talvez o mais legal do post tenha sido a justaposição desses poemas.
Com “Acordando”, uma peneirada e a refundição dos sendimentos mais pesados seriam procedimentos bem interessante. É menos “puro cano de escape” do que você pensa – creio.
O “Amor” está pronto como está. :)
(Como sempre. :P)
doliveira said,
November 30, 2007 at 11:38 am
Porra… Odeio essas carinhas amareladas sebosas :P
doliveira said,
November 30, 2007 at 11:39 am
Por que não dá pra modificar posts aqui, afinal? >: P
L.M. said,
November 30, 2007 at 4:42 pm
Porque assim quanto mais você erra mais comentários você deixa :P
diogo said,
November 30, 2007 at 5:06 pm
hoje está partindo para aí um pacote de papel amassado e gordo.
Leone Rocha said,
December 4, 2007 at 7:12 pm
“Sabe que não resisto a sentir dor”
É neste ponto que vejo uma possível patologia em nós. Será uma cruz que teremos que carregar? Me recuso a aceitar isso. Nos momentos de clareza tento compensar este aquele sentimento lembrando o que sempre dizem: tente outra vez. Consegui avanços. Já não me entrego à tristeza como antes. Quando estou triste já sinto um “isso passa”.
Realmente. A ligação que tenho contigo é mais forte do que com alguns pessoalmente. O que expande pode limitar e virce-versa. Temos que saber usar o que temos disponível da melhor forma possível. Manter a independência é fundamental. Isso vale para as drogas. Penso nos meus pais. Eles vivem para os filhos, não têm amigos. Meu pai conversa sempre com os seus irmãos, é o máximo. parece que a tendência é esta: se isolar quando se constrói uma família. E é isto que eu quero, construir uma família. Muitos grandes amigos vem e passam, já me acostumei e sei hoje que a única maneira de ter pessoas ao redor “eternamente” é tendo uma famíla ou frequentando algum tipo de sociedade, grupo (religião, partido, clube). tem que ter um motivo para manter pessoas unidas. O simples fato de gostar da companhia não prende. Uma hora os interesses pessoais obrigam o afastamento.
Contigo eu tenho a esperânça de manter um contato duradouro mesmo que limitado. Se se tornar duradouro vale a pena, mesmo que limitado. É o que temos e sou agradecido por isso. Um dia a gente se vê novamente, um dia.
Fique bem.