Carta à sombra da árvore de natal
“E só não deixo um bilhete de suicídio porque todas as cartas de amor são ridículas.”
Indelével
- Ao Rômulo
Olho o relógio de cima
da mesa de cabeceira
onde repousa o tranqüilo
sono do tempo que gasto
roendo o fio melancólico
que me martiriza com vida.
A vida inteira se passa
nesse segundo em que olho
o tempo da cabeceira;
meus olhos nesse relógio
como se solidarizam
com todos os outros que pousam
cada um sobre seu próprio tempo,
num triste prolongamento
das horas cansadas que existem.
Se não contemplasse o relógio,
as horas existiriam,
mas de um existir menos tenso
do que esse que se conscientiza
- ou, antes, se sente -
acorrentado à corda que o prende
ao indelével, que,
paradoxalmente, existe.