(A)zul, espelho. Luz

January 30, 2008 at 2:27 am (Uncategorized)

Tudo fica mais bonito quando trago minha cabeça amarrada na minha cintura pela cinta-liga da minha responsabilidade, esbarrando meus cabelos cacheados em minha auto-crítica, que, magoada, trata de sumir com todos os vestígios de que um dia usei sandálias de borracha, escovei os dentes, fiz chapinha no cabelo, cozinhei o macarrão demais, não consegui dormir…

Felicidade enfileirada pedaço depois de pedaço, cada um cuidadosamente destroçado pelas minhas próprias mãos, felicidade guardada dentro de um delicadíssimo lenço, que eu jogo ao vento, com um sorriso nos lábios, do alto da torre do meu castelo de fumaça, felicidade que eu selo com os lábios, destinada a Lugar Nenhum.

*

Ventre
- Ao Diogo

Vasta,
a luz se amorfina,
uma nuvem apagada no céu.
A aurora é branca
como dizer
uma palavra sobre essa palavra
amanhecer.

Tem os olhos abertos – essa luz
tem os olhos abertos
como toda estrada, e segue.
Agora a lua dissolve-se dissecada
pelo sorriso amarelo do sol.

Cápsula
dentro da qual Nascer,
essa manhã se espalha
presa
aos carretéis da mente.

O fino fio frio
de um furioso final
da madrugada pende.
Agora a lua no fundo do fosso
dos olhos que emprestam
palavras
a um rosto silente.

Permalink 3 Comments

Pombinha / The Pidgey

January 22, 2008 at 4:50 am (Uncategorized)

Devo adorá-la
por sua penugem branca
e a qualidade de cavar o ar
em torno dela
com sua ausência de defeitos.

Now I must worship her
for that white-feathered skin of hers
and the gift to dig the air
around her
with her lacking imperfections.

Nunca serei como ela
rosada, uma rosa
no cabelo de fada
e a saia rodada e o rouco perfume
e a voz melindrosa que dá e não dá,

I shall never be like her
rosy, a rose
amongst the fairy hair
and the singing skirts and the way she smells
and the way she talks and her silence, no

Nunca serei como ela.
Agora, quando eu respirar,
suas mãos em concha me adormecerão
no berço bom dos lábios seus
e como lábios me abrirei confuso e trêmulo

I shall never be like her.
Now, when I take a breath
her shelly hands will smooth me into sleep
in the cradle of her lips
and like lips I shall open myself trembling

Para recebê-la
dentro de minha castidade maciça.
Mesmo que para desadormecer depois
em meio à minha e sempre
falta da beleza dela.

To take her
into the deep wombs of my chastity.
Even though I must unsleep later
amongst my unresting
missing a beauty like hers.

Permalink 6 Comments