Vênus Solitária
I
Uma mulher se aventura
pelas crateras da Lua.
Por seu umbigo ele avança
sem perguntar por seu nome.
Ele é um homem.
Ela não é.
Uma mulher seminua
pondera junto à janela.
Ele a encoxa de um jeito
que ela não tem pensamentos.
Ele a ama mulher.
Ela é.
Ela queria ser grande,
inundar a Terra de luz.
Nada que ele não possa
enquanto descalça os sapatos
gastos.
Ele é uma forma viril
e ela não passa de um ventre.
Toda essa luz é viril
e eu não passo de um ventre
triste, lasso.
II
Entregarás teu corpo (todo
o teu corpo) (eu adoro
o teu corpo) à primeira ilusão
desta noite.
Elaborarás o teu corpo
de encontro a outro corpo
na fogueira (na cegueira)
noturna.
Todo o meu sonho, então,
já será tarde… Teu corpo existirá,
absurdo, a movimentar-se,
a esquecer-se,
Fértil (fútil), enquanto
as minhas mãos sozinhas
tremerão, no frio imaginário
de tua carne.
O meu escuro não
é tátil, coração.
Tradução
Tem sido revigorante ler Emily Dickinson. Existe aquela frase, atribuída a Virginia Woolf, que diz que, se você é mulher e tem intenções literárias, pode até ir aos escritores homens por prazer, mas só tem as escritoras a quem recorrer para obter ajuda. Para mim a Emily Dickinson tem sido isso, uma mãe. Se Sylvia Plath é uma igual, Virginia Woolf é uma amiga e Clarice Lispector uma inimiga, a Dickinson é uma mãe. Daí traduzi-la ser tão delicado e ao mesmo tempo tão natural.
Das traduções abaixo, a primeira eu fiz agora e, pra variar, não pesquisei muito — não tenho paciência com dicionário e contagem de pés, blá blá blá. A segunda foi corrigida pelo Professor Doutor Livre Docente Meu Ex-Orientador, o engraçado John Milton (mas eu não incorporei a correção dele à minha versão final).
XXVII
Sou ninguém! Quem és tu?
És ninguém também, tu?
Então somos dois – não espalha!
Nos expulsariam, tu sabes.
Ser alguém, grande maçada!
Como um sapo, ter que dizer
Teu nome todo santo dia
Ao brejo perguntador!
CVI
Senti um golpe em minha mente,
Meu cérebro repartido.
Tentei juntá-lo, os pedacinhos,
Mas não consegui reuni-los.
O pensamento anterior fiz por juntar
Com a idéia de então,
Mas a seqüência emaranhou-se
Como novelos pelo chão.
Amor e Autismo
No nó do meu cotovelo,
um novo adendo: contundido,
um roxo esquálido desabrochado
para a tua beleza malsã.
É teu, é teu, chama-se com teu nome,
é obra tua, teu filho, o que eu tenho
sob a minha pele para te dizer:
minhas esperanças estão magoadas.
Ó sol, morno sol, que falta
fazias, que presença, como eu me fechava
para não me queimar e minh’alma
em tua respiração aurífera!
Num sopro fechaste meus olhos:
trouxeste as sementes do dia
em que sonhei com meu fim ofegante;
e eu jamais quisera terminar,
Que teimosia de Quixote eu tinha!
Assinalavas o meu horizonte
com a dor de que eu me cria nascida,
e as minhas noites tão frementes
Eram um tremendo romantismo aceso
para gerar a tua sombra em meu peito,
para que eu me justificasse ausente
da alegria da vida que eu tinha
E renunciava por te ter por perto.
***
***
“Behind joy and laughter there may be a temperament, coarse, hard and callous. But behind sorrow there is always sorrow. Pain, unlike pleasure, wears no mask. Truth in art is not any correspondence between the essential idea and the accidental existence; it is not the resemblance of shape to shadow, or of the form mirrored in the crystal to the form itself; it is no echo coming from a hollow hill, any more than it is a silver well of water in the valley that shows the moon to the moon and Narcissus to Narcissus. Truth in art is the unity of a thing with itself: the outward rendered expressive of the inward: the soul made incarnate: the body instinct with spirit. For this reason there is no truth comparable to sorrow.” (Presente para vocês)
