Tradução

May 18, 2008 at 5:07 am (Uncategorized)

Tem sido revigorante ler Emily Dickinson. Existe aquela frase, atribuída a Virginia Woolf, que diz que, se você é mulher e tem intenções literárias, pode até ir aos escritores homens por prazer, mas só tem as escritoras a quem recorrer para obter ajuda. Para mim a Emily Dickinson tem sido isso, uma mãe. Se Sylvia Plath é uma igual, Virginia Woolf é uma amiga e Clarice Lispector uma inimiga, a Dickinson é uma mãe. Daí traduzi-la ser tão delicado e ao mesmo tempo tão natural.
Das traduções abaixo, a primeira eu fiz agora e, pra variar, não pesquisei muito — não tenho paciência com dicionário e contagem de pés, blá blá blá. A segunda foi corrigida pelo Professor Doutor Livre Docente Meu Ex-Orientador, o engraçado John Milton (mas eu não incorporei a correção dele à minha versão final).

XXVII

Sou ninguém! Quem és tu?
És ninguém também, tu?
Então somos dois – não espalha!
Nos expulsariam, tu sabes.

Ser alguém, grande maçada!
Como um sapo, ter que dizer
Teu nome todo santo dia
Ao brejo perguntador!

(original)

CVI

Senti um golpe em minha mente,
Meu cérebro repartido.
Tentei juntá-lo, os pedacinhos,
Mas não consegui reuni-los.

O pensamento anterior fiz por juntar
Com a idéia de então,
Mas a seqüência emaranhou-se
Como novelos pelo chão.

(original)

4 Comments

  1. Vinícius said,

    Na primeira tradução só não gostei do “pântano inquiridor”, acho que não combina com o tom do resto da tradução. Mas o resto está bem legal. As adaptações (“não espalha”, “todo santo dia”, “grande maçada”) se encaixam muito bem no jeito de dizer da Emily.

    Mesmo assim, acho que a segunda está melhor. Você não caiu em nenhuma tentação de exatidão (como querer traduzir “seam by seam” com preposições, sei lá). A segunda estrofe ficou ainda mais bem-feita, límpida e “estilosa” (embora pudesse ser “fiz juntar” ao invés de “fiz por juntar”). Só senti falta (na segunda) de uma musicalidade mais acentuada, embora eu ache isso secundário na Emily DIckinson.

    O Renan sugeriu fazermos (ele, Carol, eu e outros “críticos”) uma revista decente sobre literatura, ainda que demore muito para tal. Sugeriu que, apesar de você fugir da Academia e do modo de ser acadêmico como eu fujo da estética da bermuda, fizesse parte com traduções. Tomei a liberdade de aceitar em seu nome.

  2. Leone Rocha said,

    Oi.

  3. Leone Rocha said,

    Trabalhar com crianças. Tenho uma vaga idéia do que isso possa ser para ti. Eu… queria ter 80 anos, é a idade que sinto que tenho :). Bem sabes como é difícil carregar tanto amor, mas não tem outro jeito. Vamos esperar o que há de vir. Aproveite, quem sabe ganhastes o tão sonhado motivo para se levantar da cama. Beijo.

  4. pluma said,

    O motivo existe a muito!
    a que ser pela existência dele e por ele (…).
    Não pelas provas, mas pela essencia, não a tristeza de dar peso desnecessário ao que é um presente. Fugir, fazer de conta que os olhos não estão ali, anular-se, cortar o sagrado ?
    Talvez estes aspectos necessitem ser visitados. Não o invergavel moralismo que apodrece a poesia humano do cotidiano. Que faz os olhos de dois minutos, anteriores, expurgarem ódio mentiroso. Por que não vem da alma de quem os oferece.
    …a que ser pelo simples do vazio, sim, o vazio que é completude de luz! Utopia”/ quem sabe, mas não a vivo delimitada a branco e canetas. Mesmo respeitando quem toma este caminho. Respeito que colocou-me num espaço singular…
    Um dia (…) chamado de filho foi ,outorgando deveres ao outro -. Não vejo assim, cada um é responsável pelos seus atos, e o imenso sentimento refletido, o século que vivemos não comporta mais vitimas…
    obrigada, tuas palavras evocam uma gentileza não reconhecida.

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