Professora primária (II)
Os homens da cafeteria trabalham no Tribunal João Mendes. Advogados, juízes, promotores? Tudo isso. Calvos quarentões, calvos cinquentões, promissores jovens de trinta anos (calvos), todos consumidores ávidos de nicotina, futebol e automóveis (eu os escuto bradando), grosseiros com os atendentes: ombros curtos em paletós largos.
É a melhor cafeteria das redondezas, mas me enjoam os frufrus dos ternos e risos estridentes dos brutamontes em horário de almoço. Hei de achar outro lugar.
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Enquanto isso, a padaria-bar-lanchonete (típica de São Paulo) coa duas vezes o mesmo pó de café. Ou mais vezes. Só pode ser. Ocre: gosto de terra adoçada e salgada, salpicada de pó de café. Cheguei a pensar se não tinham feito ruim desse jeito só para mim, de propósito. Não é loucura. É que São Paulo, apesar de ser essa megalópole cosmopolita aberta à diversidade que todos conhecemos ou já ouvimos falar, também tem seus momentos – ou melhor, seus locais de bairrismo e hostilidade sem lógica aparente. O fato é que, sempre que eu tento freqüentar algum desses lugares muito “tradicionais” do Centro, me sinto mal recebida. Não é loucura.
Eu perguntei à professora chefe da minha turma o quão perigoso era sair da escola a pé à noite. A resposta: o caminho menos perigoso é pela Conde de Sarzedas, mas ainda assim tome cuidado nos primeiros dias, pois você não é figura conhecida na região. Com essas palavras.
(Eu escrevi um texto sobre essa situação cosmopolitismo x bairrismo que é gritante na capital paulistana, mas falta melhorá-lo, depois eu posto.)
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O Gabriel enciumado não quer mais fazer a lição. Enterra o rosto nos bracinhos cruzados sobre a carteira, as outras crianças riem, “O Gabriel ta chorando! O Gabriel…!”, enquanto eu faço um esforço bruto para não deixar os demais de lado e ficar mimando apenas ele, o meu gatinho tolinho, meu preferido.
Passou o semestre todo na brincadeira, correndo feito um menino, brigando feito uma pessoa vívida, e agora está atrasado na alfabetização, e quando não consegue escrever alguma palavrinha ele se irrita, muito orgulhoso.
Infelizmente não posso parar o mundo para te ensinar, Gabriel.
“Você não ta me esperando!”, ai, mas se eu pudesse, se eu pudesse! Só que hoje a professora chefe faltou e estou só aqui com vocês, menininho, tenho que cuidar desse monte de crianças apagadas, mas se pudesse eu ficaria só ao seu lado, viu?
“Você não ta me esperando!”, e a cabecinha castanha se fecha, cabe na concha das minhas mãos; eu enterro meus dedos maternais na penugem fina, acaricio-o como ao bebê que eu sonho possuir, mas minha mão desliza até a orelhinha e vai pousar no ombro que estala como o esqueleto de um pássaro, e arranho o seu pescocinho de leve, com todo o carinho do mundo, ritual.
“Dá um beijo na orelha dele que ele pára de chorar!”, os outros meninos se divertem, mas estou severa, “Então tudo bem, mocinho, se não quer mais fazer a lição nós vamos continuar sem você”, e finjo que o esqueço e não percebo seu corpinho tenso entre o orgulho e o ciúme – finjo que não é meu preferido, e finjo para valer. Nosso jogo é verdadeiro. Ele é um adversário interessantíssimo. O campo de convivência entre essa criança e eu é tão ou mais denso do que todos os que estabeleço com adultos hoje.
Professora primária
Sou alguma mulher genérica pelas ruas do Centro. As advogadas no alto de seus saltos-agulhas e pernas em meias-calças me aniquilam. E as vendedoras ambulantes também, por serem carnes à mostra.
Eu ando de cabelo preso, calça jeans, tênis e blusa de frio. À uma da tarde, já sem maquiagem nos olhos. Uma dignidade tamanha, que desvia olhares sedutores.
Só quero beber café antes de ir ao trabalho e sentir o calor na espinha que a cafeína dá. Minhas vontades primordiais estão tão quietas que nem desejo cigarro.
Sou uma mulher genérica. Uma trabalhadora digna.
Ordeno meu expresso e adoço-o até estar semi-amargo. Açúcar mascavo é melhor. Escolho uma mesinha de canto, dessas que cabem exatamente dentro da sombra de um canto, e saboreio o café sem pensar em poesia. Na minha vida paralela do Centro de São Paulo, por profundidade a professora não entende mais do que o aspecto íngreme da Rua Conde de Sarzedas. A professora ouviu em burburinho, da boca de transeuntes, que a Rua Conde de Sarzedas concentra o maior comércio de artigos evangélicos do país. É uma espécie de 25 de Março do Exército de Jesus. A escola onde a professora trabalha fica no final mais finalmente da 25 de Março do Exército de Jesus.
A primeira coisa que pensei foi — se fosse um livro, pareceria inverossímil. Como se já não bastasse a irrealidade da situação em si, o trabalho, a escola, as crianças, ainda ter que passar necessariamente todos os dias pela Rua Conde de Sarzedas especializada em artigos evangélicos!
A professora abaixa os olhos para descer a rua que deve ser íngreme num ângulo de 60º. Vê cenas que de um dia para o outro jamais se repetem, cenas que ela memoriza mas, como o gosto da textura de um alimento que se come num sonho, não está apta a reproduzir. A professora vai descendo a Rua Conde de Sarzedas e, à medida que desce, vai tomando o meu lugar; alojada, finalmente, no cantinho de um de seus olhos, acompanho os seus trabalhos na escola com uma estranheza de aprendiz.
***
Pensando bem, só tenho conversado com as crianças. Quem foi a pessoa com mais de 1,30m de altura com quem eu troquei palavras esses dias, meu Deus (minha mãe não é uma pessoa)? Como é que não estou desesperada?
Não é desespero isso, essa inércia emocional como uma calmaria de que se quer suspeitar, mas a que se espontaneamente aquiesce; e que é estranha como coisas novas são estranhas, mas saber da presença de algo novo me dá esperanças.
Tristeza não se divide. A gente recorre aos outros para afastar a tristeza, não para dividi-la. A minha tristeza, a poesia, a minha profundidade nunca foram tão intensas desde que, sem nem bem intentá-lo, deixei de espedaçá-las para distribuí-las. Alegria, sim, é triste não dividir. Ver uma coisa bela—ter uma coisa bela e não ter com quem dividir, aí sim é desesperador. É o que ainda me aflige.
Felizmente a tendência é que daqui para frente a professora me tome.
Sede
I have drank of a water
That quenches all thirst:
Of a water that flows,
With a lullaby sound,
From a spring but a very few
Feet under ground—
From a cavern not very far
Down under ground.
- Edgar Allan Poe
*
Suave lobo que moras
na montanha mais distante
do reino mais alto do mundo,
o que farás essa noite?
Robusto pássaro, levas
de afetadas ratas te rondam,
querem lavar-te de alívio,
de quem serás essa noite?
Facada em meu peito extremo,
caminhas de olhar embotado
e boca apertada num gesto
de farta agonia, ou desejo?
Cadáver em plena surdina
da madrugada caduca,
teu grito invadiu-me a janela,
será que saiu de meu ventre?
Ó rasa lágrima, ó rosa
apertada entre meus cílios,
ó mãos de menino quieto,
deixa-me partir teu crânio?
Suntuosa inocência, perigo,
meu guardião e algoz, meu ereto,
ó rude réptil ancestral,
posso morar em tua garganta?
Posso velar teu sofrimento
em minhas páginas vazias?
Posso inventar a tua vida
em minhas páginas sozinhas?
Posso sentir a tua pele
em minhas páginas sentidas?
Posso chupar a tua boca
em minhas flácidas páginas?
A Multidão
I was never loyal, except in my own pleasure zone
- da banda inglesa Placebo
O Círio de Nazaré ocorre todos os anos em Belém do Pará, no segundo domingo de Outubro. Consiste em uma procissão, em que dois milhões de pessoas se agarram a uma corda que puxa a berlinda de Nossa Senhora de Nazaré pelas principais ruas e avenidas de Belém. É a maior festa católica do mundo.
Naturalmente, dadas as dimensões da festa, o número de pessoas desmaiadas, pisoteadas e de toda forma acidentadas é altíssimo.
Naquele ano eu me inscrevi como voluntária da Cruz Vermelha no Círio. Era 2004.
Eu estava designada para ficar no posto da CODEM, órgão da prefeitura localizado na Avenida Nazaré, uma das principais de Belém e a principal do Círio. Por aquele posto da Cruz Vermelha deveriam passar muitos feridos. Eu estava empolgada.
Eu estava empolgada – não apreensiva, não assustada. Eu tinha dezesseis anos e muita vontade de viver. No dia-a-dia, procurava aventura em tudo: caminhadas sem rumo pela cidade, tomar ônibus desconhecidos, fazer amizade com os pitorescos hippies da Praça da República. Eu era capaz de olhar os barcos do Ver-o-Peso e ver as caravelas das Grandes Navegações. A realidade era um mero pretexto para os meus sonhos.
O Círio, então, eu esperava como a uma enorme, interminável aventura. Que estava indo lá para trabalhar não era exatamente a minha preocupação.
Quando o dia chegou, levantei muito cedo, fui uma das primeiras a chegar ao posto da CODEM. Lá, em vez de ficar dentro do prédio esperando os feridos que chegassem da rua, como prometera a minha mãe, me filiei a um dos grupos de maqueiros que se infiltrariam no olho do furacão. Meia hora depois, estava solta no meio do Círio.
Estava solta, sozinha, no meio do Círio. Meu grupo de maqueiros – não sei, se perderam. Meus grupos sempre se perdem. Cedo ou tarde, meu individualismo os repele. Estávamos andando todos juntos, cada um tinha a sua posição, a sua função, mas, de uma hora para outra, eles se perderam. Resignada – livre – comecei então, sozinha, a minha exploração pelo Círio.
Na Estação das Docas, ajudei a empurrar a corda – foi o lugar onde fiquei mais tempo e o único momento em que, de fato, ajudei. Lembro-me de um rapaz louro com quem tive um romance mental, ali. Depois, cansada, subi a Presidente Vargas, onde o uniforme da Cruz Vermelha me ajudou a obter passagem pela multidão. Juntei-me a um outro grupo de maqueiros com a finalidade de chegar até o seu posto e beber água lá. Deu certo. Continuando, cheguei à Nazaré, onde ajudei um desses promesseiros que todo ano aparecem, cuja promessa horrível consiste em fazer o percurso do Círio de joelhos. Ajudá-los é colocar papelão diante deles e jogar-lhes água na cabeça e na boca. Fiquei pouco mais de meia hora ocupada com esta causa, até que a televisão parou de filmar.
Desligando-me do promesseiro, segui a Avenida Nazaré em direção à Basílica; queria já estar lá quando a Santa chegasse, o momento de êxtase da festa. No caminho, encontrei o Leone (lembras, Leo?); nos reconhecemos, nos abraçamos, trocamos palavras de formigas que se querem bem e seguimos caminhos opostos. Teria sido essa a última vez que vi o Leone? Não sei. Mas, na Basílica, novamente o uniforme da Cruz Vermelha me rendeu passagem, dessa vez através do bloqueio da Polícia Militar. No salão ao lado da Igreja, bebi água e comi; não sei a quem eram endereçados aqueles quitutes, mas fui confiante de que ninguém negaria comida a uma exausta, bondosa moça da Cruz Vermelha.
Depois quis ver a festa de um panorama simbólico e fui até a escadaria da Basílica de Nazaré; sentei-me à sombra de um dos grossos pilares e acho que cochilei um pouco. Quando reabri os olhos, vi beiras de saias marrons e brancas, eram padres e freiras. Ocorreu-me a idéia de ir até eles perguntar “o que é Deus?”, e deve ter sido mais por preguiça do que por bom senso que não o fiz.
Tive uma pequena epifania olhando os raios de luz das duas da tarde incidirem sobre a praça em frente à igreja, as mangueiras e o canto apavorado dos periquitos que ali moram, uma nuvem verde e amarela quando se assustam, o chão lavado de suas fezes.
Então a Santa chegou, explodiram os fogos, foi carregado nos cem metros finais o promesseiro. Quando A vi, tentei ter um pensamento profundo, fazer pedidos e orações, como ensinara minha mãe. Mas, não sei por que, lembrei que era apenas uma réplica, que a santa original não sai da igreja do Colégio Gentil. E, pior ainda, no dia anterior eu tinha estado a três metros daquela mesma réplica, aquela exatamente a qual gerava naquele momento choros, suspiros e devoções – eu a vira na ocasião de ser a representante do meu colégio no concurso de redação do Círio. Tinha até encontrado o Vitor lá, representando o colégio dele, e o Vitor comentara o tamanho da minha saia naquele local santo, diante da figura réplica da santa, e nós soltáramos um tanto de riso.
Terminei minha empreitada no Círio no final da tarde, coberta de uma lama espessa formada por suor, urina, água, tudo. Foi uma das minhas mais intensas experiências existencial-filosóficas. Que quase não ajudei enquanto voluntária da Cruz Vermelha foi só um detalhe. Um detalhe que repito até hoje em, digamos, todas as coisas que faço.
