Sede

June 10, 2008 at 1:35 am (1)

I have drank of a water
That quenches all thirst:
Of a water that flows,
With a lullaby sound,
From a spring but a very few
Feet under ground—
From a cavern not very far
Down under ground.

- Edgar Allan Poe

*

Suave lobo que moras
na montanha mais distante
do reino mais alto do mundo,
o que farás essa noite?

Robusto pássaro, levas
de afetadas ratas te rondam,
querem lavar-te de alívio,
de quem serás essa noite?

Facada em meu peito extremo,
caminhas de olhar embotado
e boca apertada num gesto
de farta agonia, ou desejo?

Cadáver em plena surdina
da madrugada caduca,
teu grito invadiu-me a janela,
será que saiu de meu ventre?

Ó rasa lágrima, ó rosa
apertada entre meus cílios,
ó mãos de menino quieto,
deixa-me partir teu crânio?

Suntuosa inocência, perigo,
meu guardião e algoz, meu ereto,
ó rude réptil ancestral,
posso morar em tua garganta?

Posso velar teu sofrimento
em minhas páginas vazias?
Posso inventar a tua vida
em minhas páginas sozinhas?

Posso sentir a tua pele
em minhas páginas sentidas?
Posso chupar a tua boca
em minhas flácidas páginas?

2 Comments

  1. Leone Rocha said,

    Só consigo imaginar que teu coração aguenta pq eu também to vivo. Se bem que às vezes me pergunto se de fato estou.

  2. LM said,

    É um problema. Já escrevi sobre isso aqui… Meu coração não quer mais aguentar. Mas é preciso coragem pra parar com o fingimento.

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