Tradução
Eu estava há um tempão olhando torto para esse poema, até que hoje resolvi dar o bote. Minha mãe ajudou a resolver algumas rimas.
Solitário – Tradução de Alone, de Edgar Allan Poe
Desde a prima infância eu não pude ser
Como eram os outros — Eu não pude ver
Como viam os outros — As minhas paixões
Eu não pude verter de comuns florações —
As quais também, em mim, não deflagraram
O sofrimento — Os meus sentidos não despertaram
Para as alegrias num tom ordinário —
E tudo o que amei — Eu amei solitário —
Então — em minha infância — na alvorada
De tão tempestuosa vida — se aguçava
Pelo pernicioso e pelo que é benéfico
O mistério a que me prontifico —
Vindo da fonte, ou da torrente —
Do rubro abismo após o monte —
Do sol girando em mim concêntrico
E seu outonal traçado aurífico —
Do raio de luz cortando o céu
A trespassar-me pelo breu —
Do relâmpago e da grossa chuva —
E a nuvem que tomava forma
(Quando o Firmamento todo era azul)
De um demônio ao que sou —
Trecho
“O olhar do observador penetrando nesse mundo de ficção veria: o requintado autodomínio que até o derradeiro instante oculta aos olhos do mundo a corrosão interna da decadência biológica; a fealdade amarelenta, sensualmente lesada, que consegue atiçar as brasas do cio em que se consome até uma chama pura, sim, alçando-se mesmo triunfante à soberania em pleno reino da beleza; a pálida fragilidade, que obtém das profundezas ardentes do espírito a força que faz prostrar-se aos pés da cruz, a seus pés, todo um povo arrogante; a persistência amável no árido e severo cultivo da forma; a vida artificial e perigosa, o anseio e a arte desgastante do impostor nato — observando todos esses destinos e ainda tantos outros semelhantes, era para se duvidar até da possibilidade de existência de um outro heroísmo, que não o heroísmo da fraqueza. Mas, afinal, que outro tipo de heroísmo seria mais adequado à época?”
Thomas Mann, “Morte em Veneza”