A mulher que matou os pássaros

August 27, 2008 at 1:44 am (Uncategorized)

- Não é, professora, que quem tem vinte anos já é meio morto?
- É. Agora volta a fazer a lição.

- Não disse, Leandro?! Tá vendo? foi a professora que falou!

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Angústia

August 17, 2008 at 3:45 am (1)

“Ficar cansado é normal”,
diria bondosa a mão bendita
quando aberta em face do
meu peito aberto,
sua límpida face espalmada
diante de minha exaustão.

“Que pouco insurja real
dos poros da terra a teus olhos;
que inverossímeis pareçam
tamanhas edificações;
as dobras, os ferros, os cimos—
são pedra e metal que articulam

A enorme imensidade
da metrópole concreta.
Não há que temer, é real.”
Mas jamais salienta o bendito
que asco e angústia são termos
mais próprios que pedra e metal

No construir-se o tangível.
Como eu estivesse cansado
demais para permanecer
naquela posição ávida,
fugi-me à sombra da mão
bendita, de seus sermões tolos.

Caminhei com calma chão liso,
meus pés pisando os calos
na dura e frágil superfície,
a dor física era real. Mais
reais eram as aves noturnas, que
sem dar pela treva inerente

A sua amara condição de aves
insones, tinham a vista turva e
voavam rasantes, sem norte,
caçando o escuro em seus grãos,
encontrando paredes de névoa
cortante pelo caminho, seguindo

Nem sempre em frente,
itinerantes traços de onírico,
gárgulas para sempre
aneladas ao meu pesadelo—
um cadáver sonhando na estrada
da vida, cegueira e violação.

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Ana Beatriz

August 4, 2008 at 1:16 am (Uncategorized)

Eu estava em pé organizando uns papéis. Ela na minha frente, com o queixo nas mãos e os cotovelos em cima da mesa. Vi de soslaio quando pôs as mãos na cintura para me inspecionar, os olhos inquirindo-me apertados, uma bochecha maior do que a outra.
- Tia, cê tá boa pra casar, não tá?
- Quem, eu? Por que isso, já, Ana Beatriz?
- Você tem namorado?
- Não.
- Por que você não tem namorado? Porque você ainda não cresceu?
- É, é por isso. Ainda sou novinha, tô estudando, não tô em fase de casar ainda.
- E quem namora engravida, né… Não é que quem namora engravida?
- É, tem isso também. Tem que esperar a hora certa pra ter um bebê, tem que ter um bom emprego, tem…
- Tia!
- Oi.
- Os peito da minha mãe é feio, os seu é bonitinho…
- … Brigada, linda! (risos)
E, subitamente:
- É tão bom ficar com você!
Correu e me agarrou pela cintura, o nariz na altura do meu umbigo.

Outro dia a ouvi dizendo a um colega:
- Vinícius, por que você não namora com o Wanderson?

E se escreve algum número terminado por 2, invariavelmente, diz:
- Olha, tão se beijando!
Seu preferido é o 52.

Ana tem o rosto ligeiramente debilóide, testa e maxilar grandes demais, o nariz chato e faltam-lhe os dentes da frente, que eram de leite. O cabelo é lindo, cacheado, oxigenado e pintado de loiro. Ainda vou lhe perguntar se tal arte foi idéia sua. Fala enrolado, entendo-a com muita dificuldade e paciência. Um amor, um docinho de côco. Ultimamente somos unha e carne, para desespero do Gabriel.

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Spleen & Emily Dickinson

August 3, 2008 at 4:41 am (Uncategorized)

XXIX

Escondo-me dentro da minha flor,
Que, se a usas na lapela,
Tu, sem suspeitares, vestes-me —
Sabem-no os anjos da capela.

Escondo-me dentro da minha flor,
Que, se a deixas esvanecer,
Tu, sem suspeitares, sentes por mim
A solidão dela.

***

Quando megeras solitárias metidas a literatas do século XXI não têm o que fazer, traduzem Emily Dickinson.

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