Toma aí uma Emily Dickinson
Não ando na liga de escrever no blog, mas vá lá, para não perder o hábito e os poucos leitores jogo aqui mais umas traduções brainstórmicas que eu fiz da Emily “Mãe Natureza” Dickinson, que estavam engavetadas e assim continuarão, tchau.
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LXXXIII, Book of Nature – How happy is the little stone
Como é feliz a pequenina pedra
A divagar sozinha pela estrada
Sem se importar com carreiras
E sem temer exigências;
Cujo manto de elementar marrom
Um universo transeunte veste;
E, independente como o sol,
Associa-se ou brilha sozinha,
Correspondendo a absoluto decreto
Em casual simplicidade.
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XXVI, Book of Love – Heart, we will forget him!
Coração, o esqueceremos!
Tu e eu, esta noite!
O calor dele esquece-o tu,
Eu, a luz que ele trouxe.
Quando acabares, vem, me diz,
Que embaço o meu pensamento.
Anda! Eu torno a lembrá-lo
Se te alongas um momento!
*
X, Book of Life – The heart asks pleasure first
O coração quer antes ter prazer,
Depois, escusar-se da dor;
Então, os pequenos anódinos
Que matam o sofrimento;
Então, poder dormir;
Então, caso tal seja
O desejo do Inquisidor,
Liberdade para morrer.
Coroa de Flores
Coroai-me de rosas — e basta. (Fernando Pessoa)
Eu costumava ter o sonho de ser coroada,
No meu dia branco, de margaridas amarelas,
Enquanto me arrumariam vestes simples
Nas quais se me pudesse enfeitar e, descalça,
Aparecer ao público deslumbrante e corada como se vivesse.
Tinha o sonho de dormir celestial,
Abençoada por um talvez sorriso discreto,
Branca e bendita, dourada de enfeites de pétalas
Como margaridas enfeitadas douram, dormindo como a amada
Filha dos reis criadores do paradisíaco repouso.
(dezembro/2003)
Romantismo de Anabel
O ano é 2003. Uma maluca de 15 anos lê Álvares de Azevedo pelos corredores do Colégio. Não tem amigos, não fala com ninguém e só se veste de preto. Os cachos de medusa escondem-lhe parte do rosto. Ei-la, Anabel.
Ao desconhecido que ao acaso lhe votasse um olhar lembrando ternura, ela escrevia versos como os seguintes:
Madrugada de Ilusões
Ilusões! O amor – a poesia – a glória. – Ilusões!
Não te ris tu comigo da glória, como eu dela?
(Fala de Macário, em “Macário”)
Eu creio porque creio. Sinto e não raciocino.
(Fala de Penseroso)
Que sonho! Era um ar abafado – sem nuvens e sem estrelas! – Que escuridão! Ouvia-se apenas de espaço a espaço um baque como o de um peso que cai no mar e afunda-se…
(Macário)
I
Reajo porque se reabrem os caminhos ao Sonho
— Só por hoje, só por este dia!
Deixai-me morrer dos frenesis mais crônicos!
Deixai, piedosos, arder esta chama aqui sem culpa!
Não é pecado, não, é o casto amor sem nome,
Planta cujas raízes finca no peito do homem
Em sinal de salvação! Não é cá loucura parva, não,
Apreciai sem terrorismo… Chama-se amor, e é deste mal
Que sofro, olhai! Perco o juízo — e sigo as ordens
Do incansável monstro — o coração!
II
Precipício de mim — tu invades,
Entras todo-poderoso e me desvendas,
Misturando os fios de mim com as tuas partes.
Meu corpo vibra — tu então abres em meu peito
A fenda, e deliras, e eu me deito descansada,
E feliz de ouvir-te satisfeito, à espera
Do que há por vir de mais…
III
O meu anjo, o meu amor, meu ideal!
Que sonho, e que vertigem!
Já não quero mais ser virgem,
Nem o quero mais sem mim.
Que mal faria aos céus unir-nos?
Nós que cantamos às flores,
Que d’enleio à primavera sorrimos
E que amando e não contendo exageramos!
Mas não julgai-me, ó vis mortais;
Não vinde dizer-me que não ame
Pois que ao sonhá-lo difamo-o;
Creio, e só me nutre o ideal.