Ocorrido hoje
Assim, como quem não quer nada, peguei uma tesoura e um alicate de unha e retalhei meus dedos do pé. “Domingo é dia de cortar as unhas do pé”, devo ter pensado, mas a verdade é que não pensava em absolutamente nada enquanto arrancava pedaços de carne dos cantinhos das unhas junto com fatias de unhas quase inteiras. Apenas conversava com minha mãe sobre as lojas de roupa que visitaremos antes de viajar. E, quando vi, meus dedos do pé decepados.
Se agora escrevo é porque estou com frio nos pés e gostaria de calçar um par de meias. Seria, na verdade, a pessoa mais feliz do mundo pudesse calçar um par de meias de algodão, quentinhas. Mas a dobrada à moda do Porto foi servida fria, se é que me entendem. Paciência.
Mas como é que pode um absurdo desses, uma pessoa aleijar-se sem se dar conta? Pois aconteceu.
>>ouvindo Talking Heads – “Remain in Light”
Strangers and I
Late at night, I sit on a backyard chair.
Being lonesome, I let my mouth be sipping
water from the moths’ teeth.
I hear them sound so silly
with their zee-zee-zees when they go round
the spotlights. I wonder
what would the sound be like
if they could reach the Moon…
While they sit on my skin
thinking I ain’t worth a thing
I watch they gossip around:
zee-zee-zee, and find them so dull.
Then I scratch the wounds
they gave me — my methodical limbs full of crap:
got two little pink stains on each arm
and uncountable ones by the legs.
Then with a sour, self-ironic smile I think
that for sequels that’s reasonably
enough, for tonight only the moths
feel like kissing me.
***
Esse poema tem muito a ver com a Sylvia Plath. Foi escrito em inglês porque na época (quase um ano atrás) eu estava lendo o Bell Jar. E a personagem desse livro é, como eu, uma colecionadora de moths. Como quase toda mulher hoje em dia. Apenas, talvez, a maioria delas se divirta com eles. Eu não me divirto com moths nem com quase nada, mas, como com quase todas as coisas, sinto que tenho uma obrigação para com eles. Isso que se manifesta em alguns de nós e que é menos abnegação do que uma espécie dissimulada de arrogância: achar que todas as outras pessoas do mundo precisam de ajuda, frágeis, meio cegas que são; ligadas a coisas tão sem importância, tomem meu dinheiro, tomem meu corpo, tomem meu esforço, eu, em minha intimidade de pessoa mais livre do que vocês, estou acima de tudo isso.
Arrogância, pois é.
Sala vazia
Sala vazia. As trinta e quatro carteiras meio bagunçadas. Os estojos, cadernos e mochilas dos alunos.
O burburinho leve das suas brincadeiras lá embaixo.
O pátio do recreio pisoteado por uma centena de crianças.
Imagino a enorme fila saindo do refeitório, entrando no refeitório. Afinal de contas quantos deles vieram à escola apenas para almoçar?
O prato fundo de plástico, os talheres frágeis cheios de marcas de ávidas bocanhadas.
O cheiro do feijão ralinho não alcança longe. Mas o arroz é fofo e espuma um bafo quente, bom. Um bolo raso de comida no fundo de cada prato.
A minha máscara pesa, quer cair do meu rosto. Os meus humores se estufam, querem transgredir a face límpida da professora, sujá-la de ânimo.
Mas não posso. As crianças precisam de mais firmeza e atenção do que eu lhes poderia dar se não renunciasse a minha persona mórbida sempre que postos os meus pés aqui. Preciso estar neutra, calcada no mais rígido estoicismo.
As portas de ferro das salas de aula são azuis, escuras. As salas de aula foram feitas para filtrar impurezas. As portas de ferro não abrem para fora. A campainha segura afirma de hora em hora com naturalidade quando se deve sair ou entrar, subir ou descer as escadas, atender a esta ou outra disciplina.
Em breve serão passos correndo abafados, a porta aberta num estrondo azul escuro, e finalmente os pequeninos rostos lavados de suor e saciedade.
Eles virão felizes porque a campainha tocou e não existe nada mais certo no mundo do que retornar à sala de aula depois de se haver brincado por horas durante os vinte minutos do recreio. E eu os receberei com amenidade alegre. Profundamente.
(Minha cabeça cai para trás e, morta, sonho que milhões de ratinhos gritando carregam-me para casa.)