December 29, 2008 at 8:13 pm (1)

“You need much looking after, Natasya Filippovna”

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O poeta gago se auto-elogia

December 14, 2008 at 3:17 am (Poesia)

Cuidado com o cão

O cão caminha calado
contando as contas de mar
caídas no cais

O cão curioso se curva
com a cara caída no chão
como quem cortejasse o céu
e conversa com a chuva consciente
carente curtido de sol
comido de câncer e cal

Cuidado com o cão

O cão cai, corre, carrega
carinha, cose, cantiga
cada coisa que
cuidado

Com a coragem do cão

**************************************************

E uma nota de rodapé aos jovens poetas do meu Brasil:
Onde pretendeis chegar levando-vos tão a sério? Ao vosso próprio umbigo? Então ficai tranqüilos que estais no caminho certo! Por que tanta rebuscância, tanta formalidade? Tamanho ar oficialesco em bocas que tudo teriam para estar úmidas da boa, da graciosa, da infalível leviandade! Oh! Quereis ser grandes? Querei-vos ornados com a pompa do estilo e os louros da fama? Tendes por desejo máximo ver-vos PUBLICADOS? Oh, dor, oh, piedade, vinde até mim, ai, meus sais!

Não vedes que o que os nossos tempos menos precisam são mais PUBLICAÇÕES? Quereis intitular-vos ppppppppooooooooooeeeeeeeeetttttttttaaaaaaaaaaasssssssssssssss à força de um apenas selo fácil que hoje em dia se grava quase que pejorativamente?! Ohhhhhhhhhhhhh! Poetas, poetinhas do meu coração, eu vos amo, mas temo pela vossa juventude desembestada. Treinai vossa mão, encontrai a vossa poesia, mas mesmo no dia em que tiverdes como que por graça divina a certeza de que sois “Grandes”, não vos levai a sério! Oh, pelos céus, não vos levai! Escrevei, mostrai vossa literatura, mas não vos levai a sério!

MIRANDA, L. In: “Noite fodida de insônia em que não me resta nada melhor a fazer”. 2008. Editora das carcaças cansadas e já quase sem paciência.

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Réquiem a uma desconhecida

December 11, 2008 at 2:25 am (Poesia)

Fui pássaro e onça
Criança e mulher.
Numa tarde de sombras
Fui teu passo.

- Hilda Hilst

***

Olhei-a várias vezes e disse:
é uma menina atrevida, essa
enxerida, maquiada, oferecida!
Sem sequer suspeitar que ela tinha
já seus poucos meses de vida.

Irritavam-me os seus sorrisinhos,
os seus vestidos, suas investidas —
“Estou pelo mundo a rodar…” —
Ah! – eu pensava – como é metida
a rosa sem par, mulherinha fingida!

Jamais a vislumbrara tímida,
plácida, oh, sinceramente ferida,
essa flor que eu julgava em seu canto
de mim tão diversa — radiante!
E hoje claro está quanto ardia…

Saberá já quanto era bonita?
Agora que as mágoas da terra são suas,
logrará, difusa nelas, redimi-las?
Oh, quem pudera em agonia abraçá-la,
apertar contra o peito sua morte e benzê-la:

– A tua beleza, rosa da penúria,
lírio embebido em saudades, pranto
aberto em rara orquídea terrena;
a tua beleza está plantada, menina,
aos pés dele por quem choraste tanto!…

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