A vida imita a arte. A arte imita o sonho
Sonho lúcido, anteontem:
É uma festa em um clube com piscina, em São Paulo. Estou de biquini preto com uma flor amarela bordada em cada seio. Estou sentada entre muitas pessoas, quando vejo F. se aproximar. Ele chega até mim, me abraça e me beija no pescoço; a sensação é deliciosa. Seguimos abraçados e fica subentendido que somos finalmente um casal.
Então, deus ex machina, surge o L. Eu deixo F. para acompanhar L. até um outro ambiente do clube, onde há menos gente, sob intenso sol; consciente de que decepcionarei F. e de que talvez L. não valha a pena.
L. e eu nos beijamos; estamos deitados no raso de uma piscina. É como da última vez: estamos juntos e ele diz coisas carinhosas, mas seus olhos estão fixos e distantes. Não confio nele por um instante sequer, mas não consigo deixá-lo.
Com culpa chego a dizer ‘Tenho que ir, o F. deve estar me procurando.’, ao que L. tem um gesto de desamparada surpresa. Eu pergunto ‘Vais ficar por aqui?’ e, dando de ombros, ele responde como uma CRIANÇA: ‘Eu vai!’
Não o deixo. Continuamos juntos. Sinto-me bem fisicamente, sem enjôo no estômago. Agora atravessamos um corredor de paredes avermelhadas onde há muita gente e vestimos roupas de noite. Passamos por um grupinho onde eu dou uns pegas num baseado mal bolado, seguindo no entanto inteira, firme e sóbria. Há quase uma felicidade em mim…
Então L. solta que ’seria bom se tivesse —’, que eu reconheço como o nome de uma droga de que ele só me falara. Olhando-o, penso rapidamente que pega mal precisar dessas substâncias, e me envergonho por mim.
A droga aparece. É uma espécie de grande comprimido que derrete em nossas mãos e é “cheirável” em estado líquido. Entramos num banheiro escondidos, às pressas, com seguranças nos perseguindo. (L. no banheiro parece ganhar as feições de uma mulher.) Apenas tenho tempo de salpicar algumas gotas do comprimido derretido em minhas narinas (não vejo a quantidade ingerida por L.); fico completamente embevecida pela droga. Saímos correndo do banheiro, os seguranças atrás de nós. Perceber meu próprio nível de loucura me faz refletir de passagem no estado mental de L.; sinto com tristeza que já não posso contar com ele.
Ele anda na minha frente, nossas mãos desprendidas, quase corremos. A droga me causa um efeito de surdez, como se eu estivesse embaixo d’água, e sinto uma quantidade laxante de medo. Eu grito ‘L.! L.!’. Ele olha para trás com um sorriso louco nos lábios e a partir de então já não estamos mais juntos.
Surgem outras pessoas, amigos dele, paulistanos típicos. Estou na roda deles. Seguranças ou pessoas da organização da festa se aproximam de nosso grupo e dizem algo sobre não terem conseguido identificar os “suicidas do banheiro”, mas que sabiam de nossa posse da droga. Eu entro em pânico, enquanto o resto do grupo (L. inclusive) parece se divertir com a situação.
Uma paulistaninha de cabelos alaranjados e crespos faz chacota, diz que dá meio comprimido da droga a quem se identificar como um dos “suicidas”. Todos gritam e riem. Em meio à confusão eu percebo que voltei a estar sóbria.
Eu vou ao banheiro pedir desculpas aos seguranças e limpar a sujeira que L. e eu fizemos. Uma mulher de mais de trinta anos, muito maquiada e vestida de branco e preto, é uma das donas da festa. Ela começa a me contar do caso que teve com um dos caras daquele grupo, de quem abortara um filho. Eu imediatamente sei que se trata de L. e afirmo-o à mulher (‘É ele!’). Ela confirma.
Ela tem uma pinta grossa e preta num canto da boca, que me faz pensar em L. beijando-a na boca e fazendo sexo com ela; em como L. já teve tantas experiências que eu teria de passar toda a vida sonhando para conhecê-las todas.
Daí até o final, a aparência dele é de um zumbi e sua imagem ocorre de forma caótica e rarefeita. Há ainda a menção a um texto que ele escrevera para a mulher do banheiro, muito elevado e muito poético. O texto me entristece enormemente. A beleza de L. me entristece, pois é a beleza de um zumbi.
Uma paulistaninha meio gorda, muito branca, vestida de verde, também ex-namorada de L., lamenta-se pois ‘Ele já foi. Tá lá fora dando risada, se divertindo.’ Eu fico então sabendo que já não estou no mesmo local que ele.
Saio da festa, procuro olhá-lo de longe, mas não o encontro (procuro entre a multidão e sei que ele está ali, mas não o vejo). Entro na festa de novo (preciso pagar outro ingresso e é muito real a sensação de desânimo por ter de gastar mais dinheiro). Estou de volta ao primeiro ambiente e procuro por F., mas é dia (como se no início não o fosse) e já há poucas pessoas no clube com piscina, nenhuma delas minha conhecida.
A lua e o teixo
(Tradução do poema de Sylvia Plath The Moon and the Yew Tree)
Essa é a luz da mente, fria e planetária.
As plantas da mente são negras. A luz é azul.
A grama descarrega suas mágoas em meus pés como se eu fosse Deus,
Alfinetando meus tornozelos e murmurando de sua humilhação.
Vaporosas, fantasmagóricas névoas habitam este lugar
Separado de minha casa por uma fileira de lápides.
Eu simplesmente não consigo ver aonde se pode chegar.
A lua não é uma porta. É uma face certa por si mesma,
Branca como uma junta e terrivelmente irritada.
Ela draga o mar para si como um crime obscuro; é quieta
Com sua boca em O aberta em completo desespero. Eu moro aqui.
Duas vezes no domingo, os sinos alarmam o céu—
Oito grandiosas línguas afirmando a Ressureição.
No final, eles sobriamente anunciam seus nomes.
O teixo aponta para cima, sua forma é gótica.
Os olhos se erguem para vê-lo e encontram a lua.
A lua é minha mãe. Ela não é meiga como Maria.
Seus véus azuis soltam pequenos morcegos e corujas.
Como eu gostaria de acreditar na ternura—
A face da imagem, suavizada por velas,
Deitando, em mim especialmente, seus olhos leves.
Eu vim caindo um longo caminho. Nuvens florescem
Azuis e místicas sobre a face das estrelas.
Dentro da igreja, todos os santos serão azuis,
Flutuando em seus pés delicados sobre os bancos frios,
Suas mãos e faces severas com santidade.
A lua não vê nada disso. Ela é calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é escuridão — escuridão e silêncio.
***
Sabe-se desse poema que Sylvia o escreveu a partir de sugestão de Ted Hughes, que apontou a paisagem de fora da casa deles e sugeriu que ela escrevesse um poema sobre o que via ali, como um “exercício”. O ano é 1961.
A minha tradução é mais literal do que poética, obviamente.
A via crucis da noite
I live by the ocean, and during the night I dive into it (Björk)
The moon is my mother. She is not sweet like Mary. (Sylvia Plath)
***
Os afetos são verdadeiros,
mas todas as palavras são dessignificadas.
Quem pisa em solo lunar não sabe
dizer palavra terrena:
vive em estado de febre
e só comunica delírios.
(A lua é minha mãe.
Ela não é meiga como a mãe de Cristo.
Ela me aprisiona e, ao me ver sofer,
derrama seus seios sobre as minhas chagas,
humilhando-me, amante.)
Eu vivo à beira do mar,
à margem da vida.
Eu fujo das ondas de um mar
que todas as noites espanca
as minhas portas e quebra
como pedisse perigo.
Quando a lua sai,
a onda do mar vem
e dentro dele eu deito.
Amanheço com sal queimando meus lábios
e finjo por disfarçar as cicatrizes
cáusticas de ontem.
O dia se abre em sorrisos
e promessas de ânimo balsâmico,
mas a espuma importuna
as esperanças futuras:
eu sei que quando a lua vem
o mar quebra as janelas,
afoga o que for meu sorriso
diurno, e me atravessa
ao outro mundo —
Lunática, todos os dias
eu me antevejo morta
na noite; todos os dias
a via crucis do meu corpo
é dúplice: aluninada e lúcida;
todos os dias me pergunto – lástima -
onde eu estive de noite.
