A via crucis da noite

January 12, 2009 at 2:43 am (Poesia)

I live by the ocean, and during the night I dive into it (Björk)

The moon is my mother. She is not sweet like Mary. (Sylvia Plath)

***

Os afetos são verdadeiros,
mas todas as palavras são dessignificadas.
Quem pisa em solo lunar não sabe
dizer palavra terrena:
vive em estado de febre
e só comunica delírios.

(A lua é minha mãe.
Ela não é meiga como a mãe de Cristo.
Ela me aprisiona e, ao me ver sofer,
derrama seus seios sobre as minhas chagas,
humilhando-me, amante.)

Eu vivo à beira do mar,
à margem da vida.
Eu fujo das ondas de um mar
que todas as noites espanca
as minhas portas e quebra
como pedisse perigo.

Quando a lua sai,
a onda do mar vem
e dentro dele eu deito.
Amanheço com sal queimando meus lábios
e finjo por disfarçar as cicatrizes
cáusticas de ontem.

O dia se abre em sorrisos
e promessas de ânimo balsâmico,
mas a espuma importuna
as esperanças futuras:
eu sei que quando a lua vem
o mar quebra as janelas,
afoga o que for meu sorriso
diurno, e me atravessa
ao outro mundo —

Lunática, todos os dias
eu me antevejo morta
na noite; todos os dias
a via crucis do meu corpo
é dúplice: aluninada e lúcida;
todos os dias me pergunto – lástima -
onde eu estive de noite.


4 Comments

  1. Patrícia Velloso said,

    últimamente leio muito pessoas naturais como você. É belo ser natural (em alguns casos). Não sei comentar poesia, acho isso tão peculiar e, ao mesmo tempo, tão de ninguém e de todos que sempre me pego falando abobrinha ou falando do meu próprio umbigo (odeio isso) ao invés de falar o que senti. Na verdade, é muito difícil ter coragem daquilo que se é. Se eu tivesse coragem, ah, diria que meu apelido era Lua e que eu chorei nos primeiros versos, mas eu não tenho.

    prazer, até.

  2. Patrícia Velloso said,

    ultimamente*

  3. Patrícia Velloso said,

    Nossa, não sei o que escrever, de verdade.
    Nesses últimos dias estava certa de excluir meu blog, mas depois de você…
    Não faz isso comigo, não me permita ter esperança de que há alguém (além do Mateus ) que pode ‘trocar figurinha comigo’… Ah, que poema aquele! Talvez, um dia desses…assim, sem compromisso, possamos falar sobre ele, sobre nossas vidas ou sobre tudo que der vontade… Fico feliz por (direta ou indiretamente) tê-la feito sorrir, isso me enche o ego (não de poder, de doçura!).

    Sem poder responder ao seu comentário com dignidade, escrevo apenas:

    muito obrigada, não só pelas belas palavras…Obrigada por ser diferente do ‘todo’.

  4. Leone Rocha said,

    Como está ai?

Post a Comment