“Passa, lento vapor, passa e não fiques…
Passa de mim, passa da minha vista,
Vai-te de dentro do meu coração.
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me…
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha…
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte…,
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh’alma…”
***
Ode Marítima, parágrafo final. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.
Para dormir & Nota prévia
Nota prévia:
Sim, eu tenho escrito muita poesia. Tentativas, evidentemente, que nem sempre se consumam nos poemas que eu gostaria de escrever, poemas necessários. Os que tenho postado aqui são os que já têm uma forma pronta mais ou menos, mas mesmo nestes ainda mexo quase todos os dias. É terapêutico construir poemas (obrigada, Emmanuel). O blog é por assim dizer o meu atelier aberto…
Tenho pensado que escrever poesia nos dias de hoje não tem como passar de um hobby, mesmo. Por questões de sociedade etc — não, não aguento mais falar disso (pensar também, mas controlar o pensamento vocês sabem como é). Enfim, o bom mesmo era escrever romance. Ah, meus botões e eu temos concluído mais e mais que a forma literária para dizermos o que queremos é a prosa, o conto e o romance. Me dêem mais trinta anos de instrução (para lutar contra as tendências acefálicas da minha conjuntura histórico-sócio-intelectual) e verão se esses poeminhas não se tornam na minha obra secundária, na cerejinha do bolo da minha masterpiece.
***
Para dormir
Lá fora a antemanhã tão longínqua! a floresta tão aqui ante outros olhos meus!
- Fernando Pessoa, “Na Floresta do Alheamento”
***
Desenterrar-se do calor que estia.
Talhar-se a ferro frio
no acolchoado espaço da penumbra.
Abraçar como entes sãos: a brusca cama,
a demorada colcha de crochê, os frisos
da cortina — a grossa vigília se impele.
Eu — posta de matéria sem afecções.
A sensação de mim é um golpe seco
que ecoa curtamente pelas dimensões
Da alcova solitária. Disperso
impertinências. Não sei discernir formas,
talvez se há conteúdo nessa ausência
De finitudes. O espaço se prolonga
em minhas dobras, que abanam em gotas
os sons que simulam as finitudes.
Se fecho os olhos, penso coisa corresponder
a essa coisa. Mas abro-os e vejo
que era senão a madrugada erguendo-se
Em redonda flor, em rósea réstia
de delírio ao redor de minha sombria mente.
Madrugada de sonho e toda de alquimias.
Embaixo de seus panos sou como um tear:
teço as sombras da noite nas sobras do dia
e, no ímpeto flébil da unção, desperto torno
O homem febril ao já porvir claríssimo:
para dormir, adulo meus olhos com acalantos
débeis. Eles ignoram que despertarão
Numa imensidade cheia de caminhos.
Mas sua alma de olhos está no que vêem:
esse escuro cheio de caminhos
sensíveis, ininteligíveis.
Noturna s/nº
Noite, cavalo vago
- Vitor Nina
***
Há uma noite inteira, imensa, à minha frente
E diante dela eu tremo toda,
Como uma virgem diante do seu primeiro amante,
Como uma esposa diante do seu mesmo marido de há anos —
Apaixonadamente… — Desesperadamente…
…
Sol negro
Na minha voz
trago a noite e o mar
O meu canto é a luz
de um sol negro e… dor
É o amor, que morreu
na noite do mar
- Caetano Veloso, na voz de Maria Bethânia
***
I
Preciso que me abraces com mais força agora:
as nuvens estão em silêncio, a lua encoberta dormita.
Sou uma folha caída, sou um grão de terra entre as ervas.
Preciso que me vejas mais distintamente agora,
que estou na altura do chão,
confundindo-me com todas as leviandades sãs da natureza,
com as suas ninharias mais laboriosas.
Em verdade, é que o simples deixou-me:
estou pequena como um começo de universo,
compõem-me fibras de galáxias desconhecidas,
estou densa e repisada como um minúsculo deus.
Preciso que recebas isso.
Não me rejeites: ama-me assim,
quando não sou mais que trêmula carne doída,
ama-me assim,
para que teu amor me reerga simples e límpida,
igual apenas àquela
doce, imperfeita mulher
que alisava com as mãos os teus belos cabelos.
II
Não desvia teus olhos da minha luz
negra. Te dou as lágrimas em minha tez
para beijares, demoradamente…
Consome a minha dor — me esgota
em tua boca. Toca
o meu corpo imperfeito com a tua mente.
Oh sente-me em teu peito!
Se ainda pulso é porque um dia amaste,
não minha coragem, não a minha mente,
mas a minha dor:
pois me quiseste mesmo pequenina
e tomaste em teus braços o mínimo animal
de insânias fatalmente ferido;
porque lançaste brancas pétalas
para lavar minhas cicatrizes;
e sentiste o cheiro de meu sangue
e nunca maldisseste meu riso.
Oh segue livre — aonde vou
estás comigo. Aonde irás
terás a bênção
do anjo negro que tu amaste
como a um abismo.
A ghoul* to Edgar Allan Poe
By a route obscure and lonely,
Haunted by ill angels only,
Where an Eidolon, named NIGHT,
On a black throne reigns upright,
I have wandered home but newly
From this Ultimate dim Thule.
- Edgar Allan Poe, in “Dream-Land”
***
Névoas, estradas e poentes cinzas
arremessaram-me adentro da cidade
arquitetada pela Noite. Meus pés
de anjo caído pela luz irônica
daqueles aconchegos sempre sombrios
puseram-se a compor passos à Morte,
tirana pitoresca da paisagem… —
Ébrios passos, de quem não tragara
um mínimo sentido do que era
a mensagem da grã Musa Obscura,
que, só de sê-lo e sendo-o tão flagrante,
tão lúcida sem pias claridades,
apenas tendo o místico semblante
das coisas que ousam ter eternidade
(dentro da Escuridão, a eternidade!)
já mostrava a um homem o ter postura!
Mas eu seguia a torto, se direito,
urgindo haver se da profunda angústia
a urrar em mim como que em grito expresso
pelas vontades da própria Noturna
eu retirava a vida póstuma, irreversa,
que era já todo o meu febril fascínio:
a voz da Noite me tinha cativo,
então da Morte aos interesses criava,
falando a língua dos homens feridos.
Só que era a dela uma outra língua antiga
que eu não sabia, mas ouvia ao longe
soprarem ventos fortes, exultantes,
como se bocas fortes mastigassem
toda a minha afetada ignorância.
Não me queria a Morte, me queria
longe a passar de suas paragens lânguidas,
com meus pés grossos, emendados, brancos,
cheios de calejadas teorias
ou rimas tão risíveis quanto os Céus
a quem Grã Noite, enorme, se antepõe.
—
*Criaturas lendárias que roubam túmulos e comem a carne dos cadáveres.
Correspondência
Na beira do mundo
Portão de ferro, aldeia morta, multidão
Meu povo, meu povo
Não quis saber do que é novo, nunca mais
Eh! Minha cidade
Aldeia morta, anel de ouro, meu amor
Na beira da vida
A gente torna a se encontrar só
- Milton Nascimento e Márcio Borges na canção “Os Povos”
***
A música que me acompanha pelos ares
decanta as cores da paisagem,
grava em si as cenas espetaculares que me escapam
pela janela do carro, enquanto,
imersa em lassidão, desassossego,
ergo meus olhos a outro tipo de paisagem —
mas essa não se pode decifrar.
Encontro em labirintos,
onde a solidão é total,
a sombra de uma chave.
Dessa sombra verto a água
que em meus olhos refrata
a luz pouca que escapa
da penumbra que eu vejo
no fundo de todas as coisas —
metodologia do estar vivo
em condições de existência
inóspitas, inescapáveis…
Mas a música, se vem
a noite, e se há necessidade
de recordar uma face, uma imagem,
uma qualquer vertiginosa silhueta
de acontecimento vivo
do mundo que perco
a delírios,
a música salva
com suas notas tímidas,
tão frequentemente trêmulas,
veementes,
o tom da textura que era
o daquela planta, pássaro ou chuva
ou moça ou rapaz bonito na curva
da estrada, no acostamento,
que passou ao meu lado, mas não pude ver,
não vi, porque estava sofrendo.
Na música, todas as coisas persistem.
A música, que o dia todo esteve em mim,
fazendo companhia ao meu vazio,
a música me mostra, no final, onde passei,
por onde andaram esses pés sem sombra,
sem tangibilidade, sem postura,
esses pés entortados pela minha alma insegura
não de si, mas do resto do mundo;
que teme pelo simples fato de que humanidades existem
e sofrem, com pés e mãos taciturnos,
com rostos precários, com dentes insanos —
carnívoros? Involuntários.
Humanos. Eu. Essa correspondência obtusa.
Mas a música! A música nunca tornou-se em memória
que não tenha sido de fato.