Correspondência
Na beira do mundo
Portão de ferro, aldeia morta, multidão
Meu povo, meu povo
Não quis saber do que é novo, nunca mais
Eh! Minha cidade
Aldeia morta, anel de ouro, meu amor
Na beira da vida
A gente torna a se encontrar só
- Milton Nascimento e Márcio Borges na canção “Os Povos”
***
A música que me acompanha pelos ares
decanta as cores da paisagem,
grava em si as cenas espetaculares que me escapam
pela janela do carro, enquanto,
imersa em lassidão, desassossego,
ergo meus olhos a outro tipo de paisagem —
mas essa não se pode decifrar.
Encontro em labirintos,
onde a solidão é total,
a sombra de uma chave.
Dessa sombra verto a água
que em meus olhos refrata
a luz pouca que escapa
da penumbra que eu vejo
no fundo de todas as coisas —
metodologia do estar vivo
em condições de existência
inóspitas, inescapáveis…
Mas a música, se vem
a noite, e se há necessidade
de recordar uma face, uma imagem,
uma qualquer vertiginosa silhueta
de acontecimento vivo
do mundo que perco
a delírios,
a música salva
com suas notas tímidas,
tão frequentemente trêmulas,
veementes,
o tom da textura que era
o daquela planta, pássaro ou chuva
ou moça ou rapaz bonito na curva
da estrada, no acostamento,
que passou ao meu lado, mas não pude ver,
não vi, porque estava sofrendo.
Na música, todas as coisas persistem.
A música, que o dia todo esteve em mim,
fazendo companhia ao meu vazio,
a música me mostra, no final, onde passei,
por onde andaram esses pés sem sombra,
sem tangibilidade, sem postura,
esses pés entortados pela minha alma insegura
não de si, mas do resto do mundo;
que teme pelo simples fato de que humanidades existem
e sofrem, com pés e mãos taciturnos,
com rostos precários, com dentes insanos —
carnívoros? Involuntários.
Humanos. Eu. Essa correspondência obtusa.
Mas a música! A música nunca tornou-se em memória
que não tenha sido de fato.
Leone Rocha said,
March 2, 2009 at 9:44 pm
“Tudo o que vemos é outra coisa”.
Como não enlouquecer e deixar de se encantar com isso?
Leone Rocha said,
March 3, 2009 at 9:32 pm
Há tempos não reservo tempo para a música. O que achas disso? Não tenho tido tempo nem para pensar nisso. Talvez deva me preocupar, ou não. O que achas?
Leone Rocha said,
March 5, 2009 at 9:11 pm
É, tem uma coletânea do Tom em casa. Ele é mágico. Ainda nos EUA? Um dia, um dia… Beijos.