Sol negro

March 9, 2009 at 12:02 am (Poesia)

Na minha voz
trago a noite e o mar
O meu canto é a luz
de um sol negro e… dor
É o amor, que morreu
na noite do mar

- Caetano Veloso, na voz de Maria Bethânia

***

I

Preciso que me abraces com mais força agora:
as nuvens estão em silêncio, a lua encoberta dormita.
Sou uma folha caída, sou um grão de terra entre as ervas.

Preciso que me vejas mais distintamente agora,
que estou na altura do chão,
confundindo-me com todas as leviandades sãs da natureza,
com as suas ninharias mais laboriosas.

Em verdade, é que o simples deixou-me:
estou pequena como um começo de universo,
compõem-me fibras de galáxias desconhecidas,
estou densa e repisada como um minúsculo deus.

Preciso que recebas isso.

Não me rejeites: ama-me assim,
quando não sou mais que trêmula carne doída,
ama-me assim,
para que teu amor me reerga simples e límpida,
igual apenas àquela
doce, imperfeita mulher
que alisava com as mãos os teus belos cabelos.

II

Não desvia teus olhos da minha luz
negra. Te dou as lágrimas em minha tez
para beijares, demoradamente…

Consome a minha dor — me esgota
em tua boca. Toca
o meu corpo imperfeito com a tua mente.

Oh sente-me em teu peito!
Se ainda pulso é porque um dia amaste,
não minha coragem, não a minha mente,
mas a minha dor:
pois me quiseste mesmo pequenina
e tomaste em teus braços o mínimo animal
de insânias fatalmente ferido;
porque lançaste brancas pétalas
para lavar minhas cicatrizes;
e sentiste o cheiro de meu sangue
e nunca maldisseste meu riso.

Oh segue livre — aonde vou
estás comigo. Aonde irás
terás a bênção
do anjo negro que tu amaste
como a um abismo.

2 Comments

  1. Leone Rocha said,

    To ficando cada vez mais popular e tu erudita.

  2. M. said,

    Você ainda não me passou a versão em papel que me prometeu.

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