Cara professora

April 30, 2009 at 2:27 am (1)

Quando foi isso? 2007 ou 2008? Ainda bem que superei essa fase, hein. VIDA ACADÊMICA NÃO HÁ NADA ENTRE NÓS.

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Cara professora,

Por favor me aceite pois estou precisando com urgência fazer algo útil em minha vida. Venho expressamente por meio desta pedir a sua nobre aceitação ao meu desesperado pedido para que vossa excelentíssima criatura tope me orientar na iniciação científica.
Professora, a senhora não imagina quantas adversidades se interpõem ao meu caminho. Acredito que a senhora deveria me orientar pois sou uma pessoa de bom coração que não pediu para vir ao mundo e, ainda assim, encontra-se em momentos como este obrigada a mendigar abrigo sob o seu teto douto e desinteressante.
Em cima de minha cama pingam muitas goteiras, professora. A senhora, que estudou psicanálise, que vive de entender literatura, a senhora consegue visualizar a vida de uma pessoa encharcada?
Eu pertenço, professora, a uma distinta classe de seres humanos; nós nascemos continuamente há séculos, há muitos séculos, sendo sempre do mesmo jeito, vivendo e morrendo sempre do mesmo jeito. Nós boiamos na vida, boiamos em nós mesmos, boiamos no humano. Não temos lugar, professora, nem em pensamento: não aderimos a crenças ou ideologias pois nada nos parece firme: nada nos parece, nada é. Como se estivéssemos o tempo todo esperando o que acontece acontecer. Às vezes uma ou outra experiência causa uma emoção límpida, então pensamos ter acontecido; mas é claro que isto logo se mostra mentiroso, ou eu não estaria escrevendo para você agora, professora, se alguma coisa de verdade existisse.

Eu entendo a Sylvia Plath, eu entendo a Sylvia Plath e um monte de outras coisas. Só que junto com o entendimento eu também me entedio, tenho muito enjôo no estômago o tempo todo e tenho vontades insaciáveis indescritíveis que se recusam a ter qualquer coisa a ver com crítica de literatura ou coisas concretas em geral. Aliás, professora, escolher Sylvia Plath para objeto de estudo já foi uma tentativa de mediação: talvez eu consiga enganar o meu Pseudo-Anti-Egocentrismo se eu estudar uma escritora louca, frustrada e suicida, pela qual eu obviamente me interessei apenas por me enxergar nela, então estudando os problemas dela eu estudaria os meus próprios problemas e assim aparentemente não estaria fazendo nada relacionado ao mundo exterior – o que é proibido quando você é um dos da minha classe de seres humanos, aliás, nós nos chamamos os nadas. Note que estou apenas falando assim abertamente sem nenhuma mediação retórico-estilística porque a senhora é da área, digo, imagino que já tenha se deparado com discursos até piores, quero dizer, menos convincentes.

E notou que, apesar de muito pouco convincentes, as palavras de um nada são carregadas de matéria bruta. Eu espero que a senhora já tenha percebido, professora, que a dificuldade absurda que nós nadas temos para efetuar uma realização transforma esta mesma realização numa obra afinca e maciça, se acaso fique pronta. O meu trabalho sobre Sylvia Plath, professora, caso eu venha a realizá-lo, o que é honestamente difícil, pensando no estado mental em que me encontro nesse momento, esse estado mental tão debilitado e ao mesmo tempo tão necessitado de algo que o instigue adiante, por isso peço sua solene atenção, professora, mas como eu ia dizendo, o meu trabalho portanto vai ser um bom trabalho, caso eu consiga concretizá-lo, pois não existe coisa que um nada venha a concretizar nessa vida que não traga consigo postas da própria carne desse nada. O meu trabalho sobre Sylvia Plath será uma coisa viva, viva como um nada, professora. A existência dele, bem como aspectos importantes da minha própria niilística existência, dependem apenas de a senhora se interessar, professora, por esse nada que é bom.

4 Comments

  1. Professora doutora da USP said,

    ctzz

  2. Leone Rocha said,

    Ufa! Depois de ler isto eu só poderia dizer uma coisa: ainda bem que eu não sou tu, deve ser difícil! Espero que leve isto na esportiva. :)

    Quanto ao post aqui deste lado, o fiz na qualidade de leigo, bem sabes. Não tenho a menor idéia do que seja a língua portuguesa, a menor idéia.

  3. Leone Rocha said,

    A ironia… sim, sim. “Níveis de interação mais complexos”. Somos nerds, definitivamente. Serão nossas ironias tão finas a ponto de exigirem tanto estudo? Isso explica nossa solidão. Liberdade mútua. Nossa sede do belo nos isolou. Mas, “there are too many of us that you can´t count”. Basta se achar. Mas ainda assim leva tempo para tal nível de de complexidade. Adorei essa! :)

  4. Diogo Araujo da Silva said,

    auhiaaiahiahaa

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