In Media Res
Poema escrito em março de 2008. Já foi postado aqui, mas fiquei com vontade de dizê-lo de novo:
***
Talvez a certeza cega de um amanhã
é que me permite, assim tão seguramente,
repousar o livro
que conta a história de nossas vidas
sobre a remota escrivaninha:
A segurança de termos tempo
ainda para contemplar
nossa história sem sequer começo.
Certamente estaremos velhos
e mudos no final do livro,
Que repousa porque temos tempo
e eu já estou tão cansada, meu filho.
Tu não morrerás (que, antes,
se extinga o silêncio, antes,
se cale o silêncio, antes, que ensurdeça);
Eu sei que serei feliz, e tu, meu protagonista.
Mas, antes, não houvesse história.
Toda eternidade é efêmera.
O fim das coisas não conta
mais do que têm verdade as entrelinhas
Dos grandes acontecimentos.
O silêncio que nos antecede
é aquele mesmo de quando
da morte da primeira estrela,
aquela que vês até hoje.
Descansemos mais um pouco.
Esse tempo que nos separa
foi feito para nos amarmos
ainda mais e mais ardentemente
do que quando formos eternos.
Enquanto isso, sublime, o teu sono
marca a página do livro, aquela
onde a vida espera.
(Mas nunca para sempre).
Saudade no ônibus
O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria…
(…)
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra…
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômala e noctâmbula!
- Manuel Bandeira, “Pierrette”
***
Eu amo um estudante de Filosofia.
Quem mais eu amaria
senão um estudante de Filosofia?
Minha existência sombria,
minha natureza vadia —
tudo o que fui e sou se alia
à imagem do estudante de Filosofia,
esse negro estudante de Filosofia
que, envolto em sômbrea e lúcida melancolia,
emparelha-se comigo numa simetria
qual formasse-nos idêntica geometria
à que conjuga a noite e o dia —
A brasa que une em cinzas a noite e o dia,
a lágrima que escorre dessa cinza fria.
Bonança
Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim, tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar elétrico
que vazasse nos prédios
e banhasse a Lagoa
até São Conrado
e ganhasse as Canoas
aqui do outro lado
- Adriana Calcanhotto, “Âmbar”
***
O corpo depois que chora fica feito cidade na bonança,
depois de tempestade.
Manso. As fibras mais elétricas.
A alma parece que fica encolhida,
como um tapete ensopado ou um pano de chão
molhado de água suja.
A pele da alma ganha um aveludado
parado, um magnetismo estático
depois que passa o choro, essa espécie de íntima chuva.
Eu seria incapaz de produzir um som mais alto que minha tristeza.
Meus dois olhos inchados enxergam um mundo mais úmido.
O choro deságua na alma essa bonança em ondas,
que se afigura em texturas na sensação que o nosso corpo tem do que somos.
Textura no que vejo. Textura no que sinto. Textura no que sou de fora para dentro.
A lágrima passou, levou, lavou.
Mas não, não mexeu com o futuro.
O futuro continua lá, irremissível, abrupto.
Essa textura de paz, engodo de bonança,
em verdade é só que o choro subverte a tristeza
em um discurso mais fluido.
Amor
Poema escrito em novembro de 2007:
***
Um grito de céu sem cor
entra pela janela sem fazer alarde.
É com meus olhos que o ouço,
degusto-o se me tateia a derme.
Excito-me — ele percebe;
transveste-se então de fim de tarde.
Consegue haver-me inerme
e quando seu dom de noite vem
solta um urro estrelado e me tem,
nem a lua soberba transcende-nos.
É beleza em intensa e pura cor.
Sabe que não resisto a sentir dor,
peço que venha sempre e me alarme.
Ele obedece como brincasse com fogo,
veio hoje e amanhã virá de novo,
aura de firmamento e mímica de estrela —
Agora está, místico, alvorecendo… —
Projétil de luz na retina,
ele rouba meu silêncio e reintegra-se:
a dimensão do meu sofrimento.
Amor: estado
“Se ele souber a treva, ele sabe de tudo.”
Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas. — Manuel Bandeira
Tese
Após virar e revirar, forçando-lhe até os avessos, a Estrela da Vida Inteira, concluo:
Manuel Bandeira não escreveu sobre guerra.