Bonança

May 18, 2009 at 4:23 am (Poesia)

Tá tudo aceso em mim
Tá tudo assim, tão claro
Tá tudo brilhando em mim
Tudo ligado
como se eu fosse um morro iluminado
por um âmbar elétrico
que vazasse nos prédios
e banhasse a Lagoa
até São Conrado
e ganhasse as Canoas
aqui do outro lado

- Adriana Calcanhotto, “Âmbar”

***

O corpo depois que chora fica feito cidade na bonança,
depois de tempestade.
Manso. As fibras mais elétricas.
A alma parece que fica encolhida,
como um tapete ensopado ou um pano de chão
molhado de água suja.
A pele da alma ganha um aveludado
parado, um magnetismo estático
depois que passa o choro, essa espécie de íntima chuva.

Eu seria incapaz de produzir um som mais alto que minha tristeza.
Meus dois olhos inchados enxergam um mundo mais úmido.
O choro deságua na alma essa bonança em ondas,
que se afigura em texturas na sensação que o nosso corpo tem do que somos.
Textura no que vejo. Textura no que sinto. Textura no que sou de fora para dentro.

A lágrima passou, levou, lavou.
Mas não, não mexeu com o futuro.
O futuro continua lá, irremissível, abrupto.
Essa textura de paz, engodo de bonança,
em verdade é só que o choro subverte a tristeza
em um discurso mais fluido.

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