Saudade no ônibus

May 20, 2009 at 1:55 am (Poesia)

O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria…

(…)
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!

E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra…
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômala e noctâmbula!

- Manuel Bandeira, “Pierrette”

***

Eu amo um estudante de Filosofia.
Quem mais eu amaria
senão um estudante de Filosofia?
Minha existência sombria,
minha natureza vadia —
tudo o que fui e sou se alia
à imagem do estudante de Filosofia,
esse negro estudante de Filosofia
que, envolto em sômbrea e lúcida melancolia,
emparelha-se comigo numa simetria
qual formasse-nos idêntica geometria
à que conjuga a noite e o dia —

A brasa que une em cinzas a noite e o dia,
a lágrima que escorre dessa cinza fria.

5 Comments

  1. Marie said,

    Muito bonito o poema. Mas por que será que a gente só escreve coisas bonitas assim quando estamos tristes?

    Fique bem. Beijos.

  2. LM said,

    É que a tristeza otimiza os sentidos. Mas eu nem to triste, to é me apaixonando mesmo. E a paixão enlouquece os sentidos — daí a poesia.

  3. Leone Rocha said,

    Hmmmm… boa sorte, mesmo.

  4. LM said,

    Precisava mais era de, sei lá, comiseração divina. É muito incômoda a sensação de estar sendo contínua e interminavelmente testada. E, sendo sozinha, ter que colocar eu mesma cada tijolo do muro da minha vida — enquanto sinto que nas vidas das pessoas leves os muros crescem nas árvores. Não quero ter consciência o tempo todo. Não quero ser sem trégua a parte ativa. Quero acordar um dia rodeada de fatos extraordinários (no bom sentido) espalhados ao pé da minha cama.

    (E que a imagem do homem que eu amo durma em paz esta noite e todas.)

  5. Estudante de Filosofia said,

    Talvez o estudante de filosofia também te ame, talvez também cresçam árvores pelos muros.

    Talvez haja vida neles.

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