Saudade no ônibus
O relento hiperestesia
O ritmo tardo de meu sangue.
Sinto correr-me a espinha langue
Um calefrio de histeria…
(…)
A minha carne complicada
Espreita, em voluptuoso ardil,
Alguém que tenha a alma sutil,
Decadente, degenerada!
E a lua verte como uma âmbula
O filtro erótico que assombra…
Vem, meu Pierrot, ó minha sombra
Cocainômala e noctâmbula!
- Manuel Bandeira, “Pierrette”
***
Eu amo um estudante de Filosofia.
Quem mais eu amaria
senão um estudante de Filosofia?
Minha existência sombria,
minha natureza vadia —
tudo o que fui e sou se alia
à imagem do estudante de Filosofia,
esse negro estudante de Filosofia
que, envolto em sômbrea e lúcida melancolia,
emparelha-se comigo numa simetria
qual formasse-nos idêntica geometria
à que conjuga a noite e o dia —
A brasa que une em cinzas a noite e o dia,
a lágrima que escorre dessa cinza fria.
Marie said,
May 21, 2009 at 12:14 am
Muito bonito o poema. Mas por que será que a gente só escreve coisas bonitas assim quando estamos tristes?
Fique bem. Beijos.
LM said,
May 21, 2009 at 12:21 am
É que a tristeza otimiza os sentidos. Mas eu nem to triste, to é me apaixonando mesmo. E a paixão enlouquece os sentidos — daí a poesia.
Leone Rocha said,
May 22, 2009 at 2:20 am
Hmmmm… boa sorte, mesmo.
LM said,
May 23, 2009 at 3:56 am
Precisava mais era de, sei lá, comiseração divina. É muito incômoda a sensação de estar sendo contínua e interminavelmente testada. E, sendo sozinha, ter que colocar eu mesma cada tijolo do muro da minha vida — enquanto sinto que nas vidas das pessoas leves os muros crescem nas árvores. Não quero ter consciência o tempo todo. Não quero ser sem trégua a parte ativa. Quero acordar um dia rodeada de fatos extraordinários (no bom sentido) espalhados ao pé da minha cama.
(E que a imagem do homem que eu amo durma em paz esta noite e todas.)
Estudante de Filosofia said,
May 23, 2009 at 12:42 pm
Talvez o estudante de filosofia também te ame, talvez também cresçam árvores pelos muros.
Talvez haja vida neles.