Um comentário & a Sina do Ópio

June 6, 2009 at 4:35 am (1)

Não faço idéia de por que esse comentário ficou até agora barrado na minha caixa de spams:

Estudante de Filosofia said,
May 23, 2009 at 12:42 pm · Edit

Talvez o estudante de filosofia também te ame, talvez também cresçam árvores pelos muros.

Talvez haja vida neles.

Também não sei quem seja o comentador. Não se trata do Estudante de Filosofia destinatário do meu poema, certamente. Em todo caso, acho que foi bom essas palavras de tom gentil só me terem sido reveladas agora, num momento em que eu estava tão carente de palavras gentis. Mas ao mesmo tempo a existência imaterial de pessoas com quem me comunico apenas abstratamente me confunde. Eu acredito nesses contatos, pois sou menos sã do que louca. O ideal seria então que não me aparecessem tais palavras de tom gentil do fundo de uma noite já dada como perdida — para não reforçar a loucura.

Mas agora é tarde.

***

Uma breve palavra sobre Alprazolam.
Eu hei de compor um hino a Alprazolam. Eu uso (ou, para falar como De Quincey, eu como) Alprazolam porque não se toma mais ópio nos dias de hoje. Ao longo da História os homens comeram ópio, sorveram vinho, tragaram haxixe, e conformemente tomam hoje comprimidos de exaustão como Alprazolam, pois do tanto de nós que se desintegra na concorrência das eras fica esse cerne meio histérico, sequioso do Nada, que faz continuamente a mente dos homens idealizar o Nirvana e crer alcançá-lo.

Um dia hei de compor um hino a Alprazolam – algum subproduto de Opiário

Ao toque adormecido da morfina
Perco-me em transparências latejantes
E numa noite cheia de brilhantes,
Ergue-se a lua como a minha Sina.
(…)

Por isso eu tomo ópio. É um remédio.
Sou um convalescente do Momento.
Moro no rés-do-chão do pensamento
E ver passar a Vida faz-me tédio.

(Álvaro de Campos – “Opiário”)

5 Comments

  1. LM said,

    Alprazolam me faz querer dividir tudo com todos porque vejam só quanta beleza:

    “Na Noite Terrivel

    Na noite terrível, substância natural de todas as noites,
    Na noite de insônia, substância natural de todas as minhas noites,
    Relembro, velando em modorra incômoda,
    Relembro o que fiz e o que podia ter feito na vida.
    Relembro, e uma angústia
    Espalha-se por mim todo como um frio do corpo ou um medo.
    O irreparável do meu passado — esse é que é o cadáver!
    Todos os outros cadáveres pode ser que sejam ilusão.
    Todos os mortos pode ser que sejam vivos noutra parte.
    Todos os meus próprios momentos passados pode ser que existam algures,
    Na ilusão do espaço e do tempo,
    Na falsidade do decorrer.

    Mas o que eu não fui, o que eu não fiz, o que nem sequer sonhei;
    O que só agora vejo que deveria ter feito,
    O que só agora claramente vejo que deveria ter sido —
    Isso é que é morto para além de todos os Deuses,
    Isso — e foi afinal o melhor de mim — é que nem os Deuses fazem viver …
    Se em certa altura
    Tivesse voltado para a esquerda em vez de para a direita;
    Se em certo momento
    Tivesse dito sim em vez de não, ou não em vez de sim;
    Se em certa conversa
    Tivesse tido as frases que só agora, no meio-sono, elaboro —
    Se tudo isso tivesse sido assim,
    Seria outro hoje, e talvez o universo inteiro
    Seria insensivelmente levado a ser outro também.

    Mas não virei para o lado irreparavelmente perdido,
    Não virei nem pensei em virar, e só agora o percebo;
    Mas não disse não ou não disse sim, e só agora vejo o que não disse;
    Mas as frases que faltou dizer nesse momento surgem-me todas,
    Claras, inevitáveis, naturais,
    A conversa fechada concludentemente,
    A matéria toda resolvida…
    Mas só agora o que nunca foi, nem será para trás, me dói.

    O que falhei deveras não tem sperança nenhuma
    Em sistema metafísico nenhum.
    Pode ser que para outro mundo eu possa levar o que sonhei,
    Mas poderei eu levar para outro mundo o que me esqueci de sonhar?
    Esses sim, os sonhos por haver, é que são o cadáver.
    Enterro-o no meu coração para sempre, para todo o tempo, para todos os universos,

    Nesta noite em que não durmo, e o sossego me cerca
    Como uma verdade de que não partilho,
    E lá fora o luar, como a esperança que não tenho, é invisível p’ra mim.

    Álvaro de Campos. Poemas Completos: http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/jp000004.pdf

    LEIAM ESSES POEMAS, QUEM QUER QUE SEJAM VOCÊS. HÁ NOITES SÓ ME ALIMENTO DELES.

  2. Leone Rocha said,

    Já vistes um “confuso” decidido? Se tivesses insisitido poderías ter feito um confuso se revelar. Momentos raros esses. Uma aluna minha andou insistindo para ficar comigo. Um dia perdi a paciência e a abandonei no meio de uma praça. Ela ainda disse antes de eu ir: “podes ir”. Ela pensou que psicologia reversa funcionaria. Fui e deixei ela só na praça. Sem falar no que fiz com a minha ex namorada. A chamei de “mulherzinha”. As mulheres agem como se os homens fossem obrigados a ler pensamento, “interpretar sinais”. Primitivo. Não existe um homem de verdade que se chegares para ele e disser “me come” ele não vá te comer. Mas, para um confuso, os trâmites necessários para se chegar aos finalmentes não valem o esforço. Se não houver trâmite, burocracia, rola. Confusos não se rebaixam para as mulheres para comê-las, logo não aprendem as manhas do jogo. Tem mais coisas, mas fica para depois.

  3. LM said,

    É, fica para depois. O meu confuso não é um tipo nobre como tu, a confusão dele se resume a ele ser a fim da ex e ela não querer mais ele mas continuar dando mole pra manter o território. E ele não me apetece ao ponto de eu querer me meter nesse rolo. Tem mais, mas fica pra depois. To chapadona e acabei de ter uma idéia genial pro trabalho de Literatura Portuguesa V.

  4. Leone Rocha said,

    Nobre nada. Sou um besta mesmo e confuso, do pior tipo. Só que isso é difícil de engolir ainda mais sendo quem/como sou. Chego ao ponto de dizer que é escolha minha. Na verdade tenho preguiça de tentar. Só me resta de consolo a velha máxima: “uma hora ou outra a pessoa certa aparece”. Espero.

  5. tuto said,

    queria saber de algo assim, só sinto, cansaço todos esses dias, queria poder descansar semana toda pra estar inteiro ao fim dela e poder me acabar com resto do mundo. Mas como nada é como deveria, enquanto permaneço nessa sala me conforto em ler coisa tão bem traçada, estava com saudades disso. nem tinha intendido, mas reli agora e acho que sou desconfuso, mesmo que não entenda finjo bem.

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