Fala da Maníaca

June 12, 2009 at 3:17 am (1, Poesia)

Me deixa viver nesse espaço de exagero.
Que eu seja a Mulher Maníaca.
Que eu não consiga consentir ao fim das coisas
e insista em exercitá-las à exaustão.

Que, à beira de um ataque de nervos,
eu pule para dentro em histeria
soltando risos grossos e burros, risos
verdadeiramente grossos e burros.

Tocar a chama de uma vela com a minha língua,
eis como posso ser útil.
Não sou esquizofrênica, sendo maníaca.

Já sem qualquer depressão,
exijo que as coisas tomem uma ordem muito específica,
ou meus sentidos se implodem.

(Os sonetos do século XXI não têm métrica ou rima.
A psicanálise liquidou com as formas clássicas.
E os Modernos juram que a revolução foi estética.)

8 Comments

  1. LM said,

    Histeria (do francês hystérie, e deste do grego ὑστέρα, “matriz”) é uma neurose complexa caracterizada pela instabilidade emocional. Os conflitos interiores manifestam-se em sintomas físicos, como por exemplo paralisia, cegueira, surdez, etc. Pessoas histéricas freqüentemente perdem o autocontrole devido a um pânico extremo. Foi intensamente estudada por Charcot e Freud. Foi considerada, até Freud, como uma doença exclusivamente feminina.

    Histórico do conceito: No final do século XIX, o médico e cientista francês Jean-Martin Charcot e seus seguidores dominaram a investigação da histeria na Europa, apesar de enfrentarem grande resistência por parte de uma outra corrente, liderada por Hyppolite Bernheim (1837-1919), professor da Faculdade de Medicina de Nancy. Por ser jovem e ávido por conhecimento, Sigmund Freud não descartou nenhuma das duas visões, a de Charcot e a de Bernheim acerca da histeria e, com isso, chegou às descobertas necessárias para a criação da Psicanálise, sendo a observação do comportamento histérico a mola mestra no desenvolvimento de toda a teoria freudiana.

    ***

    Mania, palavra que vem do grego mania (loucura) é, para a Psiquiatria, o distúrbio mental caracterizado pela mudança exarcebada de humor, com alteração comportamental dirigido, em geral, para uma determinada idéia fixa e com síndrome de quadro psicótico grave e agudo, característico, embora não exclusivo (mania secundária), do Transtorno ou Distúrbio Bipolar e se caracteriza por grande agitação, loquacidade, euforia, insônia, perda da senso crítico, grandiosidade, prodigalidade, exaltação da sexualidade, e heteroagressividade.

    ***

    Não, o poema não é sobre mim. Eu estava estudando Álvaro de Campos pra um trabalho da faculdade, que é consensualmente tido como um poeta histérico. Os supracitados artigos da Wikipédia são a forma mais simples de expor aqui a idéia básica dos conceitos, mas lendo a fundo (quando trabalhava no Centro e frequentava assiduamente os seus sebos, comprei um manual de psicologia e um livro do Jung que de vez em quando leio apenas recreativamente; e no entanto agora os tive como leituras sérias), tive a idéia de escrever um poema narrado por uma mulher histérica.

    ***

    É mentira, o poema já estava escrito no meu caderno. Mas, lendo sobre histeria por causa de Álvaro de Campos, pensei que as duas coisas (poema e a luz dos conceitos psicanalíticos) podem ter relação causal mesmo que cronologicamente desconexos.

    ***

    Alprazolam me deixa intensamente criativa, logo, mentirosa.

  2. tuto said,

    é mentira? então há verdade? gosto do álvaro, do jung e de vc. São três escritos no mesmo tempo, essa linha.

  3. Marie said,

    Eu gostei muito do poema, mas não é exatamente isso que a psicanálise entende por histérica, essa definição está meio senso comum. A histérica é reprimida sexualmente ao extremo e é uma eterna insatisfeita. Acho que “Fala da maníaca” seria um título mais apropriado.

  4. Leone Rocha said,

    Lóri, resumindo: TU ÉS DOIDA.

    Pra mim esse é um dos maiores elogios que alguém pode receber. Continue vivendo.

    “Hold On”.

  5. LM said,

    É, na verdade eu usei maníaca o poema todo e coloquei histérica no título porque, sei lá… depois eu penso sobre isso.

  6. Guilherme said,

    Oi Lorena,

    Fico feliz que tenha gostado de meu post sobre “você” (ah vai, acho que já posso escrever sem aspas), realmente não o escrevi na expectativa de que você o lesse — embora, é claro, e contraditoriamente, essa idéia tenha sido meu maior estímulo ao escrevê-lo.

    Confesso que pensei seriamente em falar contigo — falar na realidade, digamos. Tentei por duas quartas . . . Mas você sumia no intervalo e não voltava depois! Mas talvez tenha sido melhor assim: você parece ter gostado de me imaginar como um idealizador brumoso de mulheres noturnas . . . Não sei bem se você está certa nessa idealização da minha idealização, mas admito que essa é uma auto-imagem que tenho tentado abandonar, não ando muito bem com esse meu malaise — e, por incrível que pareça, aquele post foi um exercício nesse sentido . . . O Manuel Bandeira ainda vai ocupar o lugar do Álvares de Azevedo na minha cabeceira (e talvez na minha cabeça também).

    Já ouço de você há muito tempo pelo Rafael e a Day, e um dia resolvi visitar seu blog, sem ter muito motivo. Gostei do jeito que você escreve, do gosto de lua — de lua urbana, refletida pelas poças das calçadas — que sinto nesse espaço, é algo como tenho sentido a mim mesmo ultimamente. Depois quando te descobri naquela aula do noturno . . . Tudo só ficou mais interessante; é facinante que você seja você mesma, pois não foi mais que uma intuição inspirada ver naquela garota que sempre fica no fundo a autora do blog.

    Ah, e não entenda como pejorativo o “post diário sobre solidão”, é natural que nos fixemos numa idéia (num símbolo), que passa a ser nosso filtro e nossa lente diante do mundo (desse mundo tão embaçado e fosco). E acredite: você escolheu bem, é um ângulo que aponta para o melhor em mim e, acredito, em todos nós. Você me inspira.

    E claro, ainda quero, e agora mais do que nunca, te dar um Oi pessoalmente. Gostei da idéia da rosa vermelha, mas nem precisa dela . . . Se os teus cachos de chumbo (confesso que essa nunca entendi!) aparecerem, já estarei bem satisfeito . . .

    Até breve.

  7. LM said,

    Aula do noturno? Guilherme, será que você viu a Lorena certa? Eu nunca vi uma aula à noite na Filosofia… Na Letras, uma vez, uma aula do Pasta.

    E quanto às quartas… Bem, tenho aula na Filosofia de segunda e sexta. A aula sobre Leibniz é na segunda.

    Quem será que você viu? Eu estava achando essa história estranha demais, mesmo.

    Sinto desapontá-lo, mas acho que não sou sua musa.

  8. Guilherme said,

    Ai, ai, minhas estórias sempre terminam assim . . . Mas já não estava implícito no meu post que eu vi a menina à noite?!

    [...] aquela menina solitária no ponto de ônibus, sem amigos por perto (e por longe?!), sem paquera, no frio, com fome e querendo ir logo para casa jantar [...]

    (e é impressionante coincidência no “fala com a professora em particular no final da aula”!)

    Mas o engano não foi completo, ele nunca é: daquela garota, eu nada sei; mas este ainda é o seu blog, não é?

    Pois é, eu realmente o li inteiro.

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