Dostoiévski

June 29, 2009 at 6:59 am (1)

Só me interessa a treva. Seja diante de pessoas ou de obras de arte, minha expectativa e minha procura se dão em função da presença de treva ali: uma cicatriz no pulso da cena final do filme, um traço de humor peculiar aos iniciados na miséria, um verso impudico transgredindo um poema que parecia ser santo, frases ditas ou não ditas que se ouvem dizer por aí, em alguma distraída entrelinha. Sinais de treva, eu procuro.

Ler Dostoiévski me enche de satisfação porque seus personagens são tão desgraçados e miseráveis quanto se pode ser; suprem perfeitamente as minhas expectativas. Eles são Humanos segundo meu conceito pessoal de humanidade, que felizmente não é só meu, mas ao mesmo tempo não é o do vulgo. Fato é que diante de Dostoiévski sinto-me espiritualmente em casa, e cada linha sua me preenche com amor e profundo prazer estético. É o prosador ideal. Não preciso conhecer mais nenhum autor para ter certeza de que Dostoiévski é, num certo sentido muito específico, o meu Ideal de literatura.

Muitas pessoas (aqui começo a encolerizar-me) conseguem passar por Dostoiévski e sair limpas, intocadas, tão asseadas quanto antes. Pior é que não raro ousam até proclamar belo o horrível presente ali — elogiam a sujeira, a má sorte, os maus tratos. Mas apenas da boca para fora — do seu sensato e asseado senso estético para fora! Sendo que no fundo, na realidade, eles não participaram do essencial do livro, nunca estiveram em sintonia com a única, a inconfundível freqüência da Penúria. Lêem, e decerto admiram aquelas linhas tão seguras de si, tão bem articuladas; e o conteúdo, ora, o que mais se pode dizer, é de primeira, é genuína Literatura!

Ha-ha-ha! Literatura! Eles acham que é literatura! Gostam, compreendem, interpretam, sabendo que é ficção da melhor que há no mercado, é! — E não parece, por um segundo sequer, lhes passar pela cabeça que com Dostoiévski eles estejam diante da vida, sim, da vida não como ela é, não a vida ficcionalizada, mas a vida mesmo, tão viva quanto eu ou você que me lê e as coisas que nos acontecem.

Meu Deus, ler Dostoiévski me ajuda tanto a continuar existindo, me ensina tanto sobre mim, me faz pensar tanto sobre o mundo e as outras pessoas, e além de pensamentos me causa delírios, que não raro são mais intelectualmente férteis do que as idéias claras! Quando termino de ler um livro deste autor, sinto vontade de conversar sobre a Miséria e a Desgraça, sobre o Amor muitas vezes, porém, terrivelmente, todos os interlocutores que encontro são alunos de Letras engravatados discutindo Dostoiévski à luz da sua última aula de Teoria Literária na USP, embolando-o com um tal de Bakhtin who-the-fuck, e nada, absolutamente nada do real conteúdo do livro!

A título de curiosidade masoquista, experimente-se puxar conversa com essas pessoas sobre algum livro do autor russo: elas fazem a síntese do enredo e são inclusive capazes de recitar de cor longos trechos do texto; traçam interpretações filosóficas, sociológicas, históricas, epistemológico-hidráulicas (sic) — corretamente recortadas de livros respeitáveis e corretos; quando não, são meros esboços tortos improvisados à força de dizer algo inteligente sobre uma obra de valor universal. Pois elas sabem, elas têm certeza de que se trata de uma obra valorosíssima — mérito de Dostoiévski, que, mesmo àqueles que o não compreendem, consegue intimidar com suas Eloqüentes Mandíbulas Doentias; acrescido de que há ainda, nesses casos, a forte influência dos Professores sobre a apatia dos pupilos acéfalos, que neuroticamente repetem, repetem e não se cansam de repetir valores por eles deglutidos crus e a seco, e aliás sem dor nenhuma.

Me é, enfim, profundamente — profundamente! — irritante ver Dostoiévski boiar como um pedaço de carne objetiva e compreensível no caldo ralo desses humanos detestáveis. Não tenho pudor em dizê-lo, não sou humanista nem sou qualquer coisa: simplesmente há humanos detestáveis, em quem não há treva mas o oposto dela: e o oposto da treva é a mediocridade, é a anti-humanidade segundo o meu conceito de humano. Que felizmente não é só meu, é também o de Dostoiévski, de Clarice Lispector, de Hermann Hesse, de Fernando Pessoa, do Diogo, do Vitor Nina, do Leone, do Paulo. Preciso conter minha indignação. Preciso continuar minha leitura de “Crime e Castigo” e esquecer todas as besteiras que não pude evitar ouvir esses anos todos, sem poder contestá-las pois não lera o livro.

Dostoiévski está protegido, muita gente o compreende. A treva se infiltra na higiene do mundo, o esgoto transborda do subsolo e lambuza as calçadas (nós queremos que o esgoto transborde e lambuze as calçadas!). Nós vamos sobreviver, vai ficar tudo bem.

4 Comments

  1. Marie said,

    Eu li Crime e Castigo no ano passado e fiquei completamente passada com a riqueza dos personagens e das emoções, de tudo o que ele descreve. Não tem como explicar, tem que sentir. Entendo perfeitamente o que dizes sobre as pessoas que não se afetam por ele, que passam incólumes a toda essa intensidade. Essas pessos realmente me deixam perplexa. O que está escrito, está escrito.

  2. Leone Rocha said,

    Só li metade. Pelo que lembro era mais uma pintura do que um livro.
    Neste teu texto chegastes ao nível nietzscheano da crítica.

  3. Leone Rocha said,

    Faltou um coisa: teu texto me deu náuseas.

  4. Lincoln Noronha said,

    Dostoiévski é sobre como invocar as forças para cometer um crime, mas sem perder de vista que se trata de um crime.

    É sofrer a moralidade de uma revolução.

    saudades.

    Li.

Post a Comment