A lua e o teixo
(Tradução do poema de Sylvia Plath The Moon and the Yew Tree)
Essa é a luz da mente, fria e planetária.
As plantas da mente são negras. A luz é azul.
A grama descarrega suas mágoas em meus pés como se eu fosse Deus,
Alfinetando meus tornozelos e murmurando de sua humilhação.
Vaporosas, fantasmagóricas névoas habitam este lugar
Separado de minha casa por uma fileira de lápides.
Eu simplesmente não consigo ver aonde se pode chegar.
A lua não é uma porta. É uma face certa por si mesma,
Branca como uma junta e terrivelmente irritada.
Ela draga o mar para si como um crime obscuro; é quieta
Com sua boca em O aberta em completo desespero. Eu moro aqui.
Duas vezes no domingo, os sinos alarmam o céu—
Oito grandiosas línguas afirmando a Ressureição.
No final, eles sobriamente anunciam seus nomes.
O teixo aponta para cima, sua forma é gótica.
Os olhos se erguem para vê-lo e encontram a lua.
A lua é minha mãe. Ela não é meiga como Maria.
Seus véus azuis soltam pequenos morcegos e corujas.
Como eu gostaria de acreditar na ternura—
A face da imagem, suavizada por velas,
Deitando, em mim especialmente, seus olhos leves.
Eu vim caindo um longo caminho. Nuvens florescem
Azuis e místicas sobre a face das estrelas.
Dentro da igreja, todos os santos serão azuis,
Flutuando em seus pés delicados sobre os bancos frios,
Suas mãos e faces severas com santidade.
A lua não vê nada disso. Ela é calva e selvagem.
E a mensagem do teixo é escuridão — escuridão e silêncio.
***
Sabe-se desse poema que Sylvia o escreveu a partir de sugestão de Ted Hughes, que apontou a paisagem de fora da casa deles e sugeriu que ela escrevesse um poema sobre o que via ali, como um “exercício”. O ano é 1961.
A minha tradução é mais literal do que poética, obviamente.
Toma aí uma Emily Dickinson
Não ando na liga de escrever no blog, mas vá lá, para não perder o hábito e os poucos leitores jogo aqui mais umas traduções brainstórmicas que eu fiz da Emily “Mãe Natureza” Dickinson, que estavam engavetadas e assim continuarão, tchau.
***
LXXXIII, Book of Nature – How happy is the little stone
Como é feliz a pequenina pedra
A divagar sozinha pela estrada
Sem se importar com carreiras
E sem temer exigências;
Cujo manto de elementar marrom
Um universo transeunte veste;
E, independente como o sol,
Associa-se ou brilha sozinha,
Correspondendo a absoluto decreto
Em casual simplicidade.
*
XXVI, Book of Love – Heart, we will forget him!
Coração, o esqueceremos!
Tu e eu, esta noite!
O calor dele esquece-o tu,
Eu, a luz que ele trouxe.
Quando acabares, vem, me diz,
Que embaço o meu pensamento.
Anda! Eu torno a lembrá-lo
Se te alongas um momento!
*
X, Book of Life – The heart asks pleasure first
O coração quer antes ter prazer,
Depois, escusar-se da dor;
Então, os pequenos anódinos
Que matam o sofrimento;
Então, poder dormir;
Então, caso tal seja
O desejo do Inquisidor,
Liberdade para morrer.
Dor de cotovelo & Emily Dickinson
Poemas do livro Amor (os poemas completos dela foram organizados em livros: Vida, Amor, Natureza e Tempo & Eternidade).
***
Orgulhosa de meu coração partido desde que o partiste,
Orgulhosa da dor que eu não senti antes de ti,
Orgulhosa dessa noite minha desde que de luas a satisfizeste,
Para não tomar parte em tua paixão, eu, humilde.
*
Ó noites! Ó fúria!
Contigo estivesse,
Tais noites seriam
A nossa luxúria!
São fúteis os ventos
Ao peito aportado –
Bem longe de mapas,
Bem longe de bússola.
Singrando no Éden!
Ah! o mar!
Se ao menos pudesse
Em ti ancorar!
*
Pai, não é a mim que te oferto,
Que seria encomenda menor;
Trago-te aqui este coração régio
Que não consegui suportar.
O coração ninado dentro ao meu
Até este encher-se de pesar,
Ainda que mais intenso do que antes,
Será que o poderás tomar?
*
(Desse eu não colocarei o original e pedirei a confiança de vocês.)
(…)
Então devemos estar apartados,
Tu aí, eu aqui,
Com apenas essa porta aberta
Que os oceanos são,
E preces,
E aquela sustentação pálida,
Desespero.