Amor

May 18, 2009 at 12:07 am (Poesia)

Poema escrito em novembro de 2007:

***

Um grito de céu sem cor
entra pela janela sem fazer alarde.
É com meus olhos que o ouço,
degusto-o se me tateia a derme.

Excito-me — ele percebe;
transveste-se então de fim de tarde.
Consegue haver-me inerme
e quando seu dom de noite vem
solta um urro estrelado e me tem,
nem a lua soberba transcende-nos.

É beleza em intensa e pura cor.
Sabe que não resisto a sentir dor,
peço que venha sempre e me alarme.

Ele obedece como brincasse com fogo,
veio hoje e amanhã virá de novo,
aura de firmamento e mímica de estrela —

Agora está, místico, alvorecendo… —

Projétil de luz na retina,
ele rouba meu silêncio e reintegra-se:
a dimensão do meu sofrimento.

Permalink 1 Comment

Amor: estado

May 9, 2009 at 6:58 pm (1)

“Se ele souber a treva, ele sabe de tudo.”

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.
— Manuel Bandeira

Permalink 1 Comment

Tese

May 4, 2009 at 2:29 am (1)

Após virar e revirar, forçando-lhe até os avessos, a Estrela da Vida Inteira, concluo:

Manuel Bandeira não escreveu sobre guerra.

Permalink 3 Comments

Cara professora

April 30, 2009 at 2:27 am (1)

Quando foi isso? 2007 ou 2008? Ainda bem que superei essa fase, hein. VIDA ACADÊMICA NÃO HÁ NADA ENTRE NÓS.

***

Cara professora,

Por favor me aceite pois estou precisando com urgência fazer algo útil em minha vida. Venho expressamente por meio desta pedir a sua nobre aceitação ao meu desesperado pedido para que vossa excelentíssima criatura tope me orientar na iniciação científica.
Professora, a senhora não imagina quantas adversidades se interpõem ao meu caminho. Acredito que a senhora deveria me orientar pois sou uma pessoa de bom coração que não pediu para vir ao mundo e, ainda assim, encontra-se em momentos como este obrigada a mendigar abrigo sob o seu teto douto e desinteressante.
Em cima de minha cama pingam muitas goteiras, professora. A senhora, que estudou psicanálise, que vive de entender literatura, a senhora consegue visualizar a vida de uma pessoa encharcada?
Eu pertenço, professora, a uma distinta classe de seres humanos; nós nascemos continuamente há séculos, há muitos séculos, sendo sempre do mesmo jeito, vivendo e morrendo sempre do mesmo jeito. Nós boiamos na vida, boiamos em nós mesmos, boiamos no humano. Não temos lugar, professora, nem em pensamento: não aderimos a crenças ou ideologias pois nada nos parece firme: nada nos parece, nada é. Como se estivéssemos o tempo todo esperando o que acontece acontecer. Às vezes uma ou outra experiência causa uma emoção límpida, então pensamos ter acontecido; mas é claro que isto logo se mostra mentiroso, ou eu não estaria escrevendo para você agora, professora, se alguma coisa de verdade existisse.

Eu entendo a Sylvia Plath, eu entendo a Sylvia Plath e um monte de outras coisas. Só que junto com o entendimento eu também me entedio, tenho muito enjôo no estômago o tempo todo e tenho vontades insaciáveis indescritíveis que se recusam a ter qualquer coisa a ver com crítica de literatura ou coisas concretas em geral. Aliás, professora, escolher Sylvia Plath para objeto de estudo já foi uma tentativa de mediação: talvez eu consiga enganar o meu Pseudo-Anti-Egocentrismo se eu estudar uma escritora louca, frustrada e suicida, pela qual eu obviamente me interessei apenas por me enxergar nela, então estudando os problemas dela eu estudaria os meus próprios problemas e assim aparentemente não estaria fazendo nada relacionado ao mundo exterior – o que é proibido quando você é um dos da minha classe de seres humanos, aliás, nós nos chamamos os nadas. Note que estou apenas falando assim abertamente sem nenhuma mediação retórico-estilística porque a senhora é da área, digo, imagino que já tenha se deparado com discursos até piores, quero dizer, menos convincentes.

E notou que, apesar de muito pouco convincentes, as palavras de um nada são carregadas de matéria bruta. Eu espero que a senhora já tenha percebido, professora, que a dificuldade absurda que nós nadas temos para efetuar uma realização transforma esta mesma realização numa obra afinca e maciça, se acaso fique pronta. O meu trabalho sobre Sylvia Plath, professora, caso eu venha a realizá-lo, o que é honestamente difícil, pensando no estado mental em que me encontro nesse momento, esse estado mental tão debilitado e ao mesmo tempo tão necessitado de algo que o instigue adiante, por isso peço sua solene atenção, professora, mas como eu ia dizendo, o meu trabalho portanto vai ser um bom trabalho, caso eu consiga concretizá-lo, pois não existe coisa que um nada venha a concretizar nessa vida que não traga consigo postas da própria carne desse nada. O meu trabalho sobre Sylvia Plath será uma coisa viva, viva como um nada, professora. A existência dele, bem como aspectos importantes da minha própria niilística existência, dependem apenas de a senhora se interessar, professora, por esse nada que é bom.

Permalink 4 Comments

Esther and Holden’s honeymoon

April 27, 2009 at 2:55 am (1)

- It’s so dramatic, isn’t it?
- What?
- This surgery thing. I always find it so overdramatic in books and movies when they take place in a hospital.
- I know what you mean. I know what you want to suggest. But you’re no protagonist to no hospital movie, Karin!
- I know… It’s just… It just gets tiresome sometimes, you know. Every two, maybe three years, and the same shit, the same butchers, the same shame, shame, shame!…
- It’ll be the last time, I promise you…
- I don’t want to be the protagonist of a hospital book, Dr. Rhoda.
- Darling, you’re not! This isn’t your whole life!
- But I guess it is my whole subconscious life. Otherwise I wouldn’t be so miserable.
- You credit you misery to the surgeries?
- I guess so. I don’t know. I mean, it’s the most serious thing that ever happened to me. The one big thing to justify my great dissatisfaction.
- But you told me you’ve been different your whole life. Unsociable, bad self-esteem.
- Yeah, but maybe it was inside me from the beginning, you know? Like a curse or something. Since I was a little kid I sensed my life wasn’t to be normal. Sometimes I think of this feeling as a prediction, at others I’m simply convinced that I caused it… That I caused it by having those wishes… To have wished things in a sorta sickly way from the very beginning, like I had a demon in me! And this demon, he did it to me!
- You think you caused your…?
- I don’t think anything, Dr. Rhoda, I’m just here telling you these things because I’m nervous and I have to keep saying shit so that you won’t tell them I am not cooperating, but I know I’m contradictory, as all the time I feel like what I’m saying is totally foolish and definitely nonsensical, because that’s what it is. And I know it’s no use to keep telling you or anyone these things, for they’re just as empty as I am. You’d better stop believing me, Dr. Rhoda, you’d better doubt my moods and my words, I’m no self of my own, I’m a personae, it’s all lies, you know? I’m such a big liar, I’m the greatest liar you’ll ever hear in you whole life, Dr. Rhoda!……………………. And I just can’t see where there is to get to.

Permalink Leave a Comment

Retrato em negro e branco

April 20, 2009 at 5:38 am (1)

Daqui de onde te vejo és branco.
Tua silhueta é diáfana, mas teu centro é feito em denso branco
e teu cerne é cortado por incontáveis traços cristalinos.

O que há de cristalino em ti reflete o teu escuro.
Quando de perto observo-te, vejo teu negro
coração sólido, menos que pulsante, em lentidão, estóico.

Exalas um não sei o quê de esforço, um duro
tom de coisa reprimida, que se queria arfante.
És negro, negro e branco, fosco e límpido

Ao mesmo inescrutável e irascível tempo.
Tua fala é branca, teu silêncio, tuas mãos de criança.
Teu gesto desamparado é negro, tua timidez, tua incompostura.

Teus pêlos são negros, mas o redor dos teus olhos é branco.
Teu andar é branco, tua voz é branca, mas o soar
da tua voz é negro. Teu estar de pé é negro.

Tua transpiração, em febril constância, é negra.
Teus dentes retos e cegos são pura e simplesmente brancos.
Teu olhar é branco, mas às vezes, assustador, é negro.

Teus poemas devem ser negros, cada verso
como um fio de teu denso cabelo. Mas a raiz é branca,
serena, bondosa e branca, como o que há de ser raiz tua.

Daqui de onde te vejo te desejo negro:
meus olhos te cobiçam cheios de fome noturna.
Mas, se me aproximo, é sem querer pela tua sombra branca,

A sombra de luz que tu lanças sobre a minha carência
afetiva, obsessiva, literária, cultivada e cativa.
Te devoro e te faço prisioneiro em minha negra garganta.

O teu cárcere dentro de mim é também o meu cárcere negro.
Mas a cama em que dormes é branca. Aqui dentro
de ti, a minha negra, importuna paixão é branca

paixão pelos teus traços negros.

***********************************************************************

O poema acima é para o Paulo.
Propaganda do blog novo do Diogo:
anjosvadios.wordpress.com

Estando dentro da minha madrugada, escrevi o poema porque queria falar sobre o Paulo. Não resisti e tomei os remédios e cá estou drogada de novo. Mas é bom. Sinto-me incrivelmente confortável na presença do meu pensamento liberto. Não gosto de fazer outra coisa na vida além de contemplar o meu próprio ser por dentro, por dentro. Eu queria escrever sobre o Paulo, mas não sentia qualquer inclinação poética, então o poema saiu muito ruim no início, mas o resultado final saiu menos pior. Eu não me preocupei com a necessidade de cada palavra dentro do poema. Mais do que isso, as imagens são contraditórias e talvez não façam sentido fora de mim, realmente. Mas poesia precisa necessariamente funcionar assim? Sobre bases coerentes rígidas. Há muitos sentidos soltos dentro dos meus poemas. Ainda não encontrei um motivo para corrigir isso. Corrijo as palavras em excesso. Nesse poema há uma ou outra, que retirarei nas próximas releituras. Mas um poema é um todo. O que ele diz é para ser compreendido com os sentidos primeiros: peguem o meu poema em suas mãos e entendam-no com o seu tato. O texto, a coerência linguística do texto, ela está submetida às interpretações sensoriais do texto. Eu sou uma poeta drogada escrevendo poemas que devem ser lidos de modo drogado. Não tem a ver com o coração, tem a ver com os sentidos. Não faço questão de falar de mim, mas é preciso defender os meus poemas, que são poemas drogados, imediatos, inconsequentes.

***

No dia seguinte ao poema e ao texto acima, já sóbria, recomendo: slowlydownward.com
Ouvi uma história após a outra sem me mover e sem deixar de sorrir. Riso negro em especial para a número 8, “Condiment”.

Permalink 5 Comments

Conteúdo e conteúdo. Forma, só Deus sabe

April 14, 2009 at 10:50 pm (1)

Luís de Camões – Soneto V (na minha edição):

Um mover de olhos, brando e piedoso,
Sem ver de quê; um riso brando e honesto,
Quase forçado; um doce e humilde gesto,
De qualquer alegria duvidoso;

Um despejo quieto e vergonhoso;
Um repouso gravíssimo e modesto;
Uma pura bondade, manifesto
Indício da alma, limpo e gracioso;

Um encolhido ousar; uma brandura;
Um medo sem ter culpa; um ar sereno;
Um longo e obediente sofrimento:

Esta foi a celeste formosura
Da minha Circe, e o mágico veneno
Que pôde transformar meu pensamento.

***

http://www.youtube.com/watch?v=66tf7nnXwhU

Permalink Leave a Comment

Caros e indiferentes leitores,

April 10, 2009 at 5:36 am (Poesia)

Advirto que o post anterior é enormemente mentiroso. Escrevi-o durante um surto de inteligência privado porém de bom senso (quiçá, vergonha na cara). Devo, pois, sob nenhuma outra pressão além de meu próprio tédio, declarar por meio deste que não li mais que as cinquenta páginas iniciais do livro O Lobo da Estepe, de Hermann Hesse, condição a qual desqualificaria minha opinião expressa em razão do livro, no entanto eu, que apenas tenho a declarar minha existência ao espelho do banheiro e ao meu umbigo, se expressei os conteúdos verificáveis no já presentemente citado post, fi-lo por motivação idêntica àquela qualidade temporal da alma chamada sinceridade, cuja força motriz é a espontaneidade, que se em meu espírito não chega a ser afecção preponderante, o é se me encontro, como ora hei por bem encontrar-me, sob o efeito de estimulantes químicos, os quais aqui correspondem aos chamados neurolépticos, a que recorro desde que inapta a ingerir álcool e nem por este motivo adepta de drogas mais pesadas como as que se têm ingeridas por, digamos, moradores de rua e/ou burguesinhos enxotados de si mesmos por pertencerem à casta social a que pertencem.

Tendo dito isto, despeço-me, e deste feriado de uma semana que se instalou em minha vida pelo período de exatamente nove dias; daqui para frente, sem mais posts drogados pela maDROGADA:

Adeus.

E isto é para que se não questione jamais a máxima atemporal: Um estudante de Letras é um estudante de Letras.

Permalink 2 Comments

Opinião literária: para agradar aos meus leitores acadêmicos

April 7, 2009 at 4:35 am (1)

“Muito teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar nas pontas dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido.”

(O Lobo da Estepe, Hermann Hesse, trad. Ivo Barroso)

***

Bem, como eu estava dizendo ainda agora ao meu recente e patético diário: Clarice Lispector leu o supracitado livro durante sua adolescência e enlouqueceu de prazer estético. Após terminar a leitura, começou a escrever uma história que não terminava nunca mais. Este relato existe em formato vídeo para quem quiser conferir no YouTube.

Pois, bem. Em sua obra, se tomada como revisão de Hesse (é claro que não apenas dele, mas pensemos na presença de Hesse na obra de Clarice), Lispector transcende o modelo elevando-o a uma complexidade que nele era mero esboço: Hesse propõe uma forma simples, Clarice a recompõe em minuciosa arte de perspectivas multidimensionais. Isto é, salvo engano de minha parte, a obra lispectoriana cumpre mais com a proposta de Hesse do que a dele próprio. Ou, ainda, falando a linguagem que eu gosto de usar sempre que livre (embora o seguinte não seja resumo exato de tudo que eu disse antes): a Lispector é muito melhor ficcionista do que o Hermann Hesse.

O protagonista d’O Lobo da Estepe é dado em traços grossos. Chega a ser sentença literal no livro algo muito próximo de “sou um solitário, um aborrecido, um homem incompatível com a sociedade burguesa.” Ora, mas pensemos que bem antes disso um certo autor já iniciara um certo livro com a frase “Sou um homem mau, um homem doente… Creio que sofro do fígado.”… E bem aí, nesse começo tão trágico quanto triunfante, já estava contido todo o Lobo da Estepe, todas as suas angústias e contradições internas e a relação destas com as contradições da época, tudo, tudo já estava inscrito apenas na sentença de abertura do “Memórias do Subsolo” de Dostoievski!

E então é isto, para aniquilar a questão: antes de Hesse já existia o “Memórias do Subsolo” de Dostoievski. Ponto. Vamos nos calar e ler “Memórias do Subsolo” até o entendermos completamente e a partir dele começar a pesquisar as particularidades do nosso próprio tempo em relação a nossas angústias que precisam ser localizadas e esmiuçadas… Só então poderemos começar a incursionar ficcionalmente pelas almas de novos Homens do Subsolo — como pretendeu ser o Lobo da Estepe de Hesse, mas que não logrou ser senão um arremedo do anti-herói dostoievskiano, pois nada a este último acrescenta, se nem sequer o alcança em termos de complexidade. Apesar da imensa beleza do Lobo da Estepe, vejam só. Mas, sinceramente, se vocês querem saber, mesmo o Luís da Silva do Graciliano Ramos é um anti-herói habitante de subsolos, um lobo da estepe muito mais emocionante, mais complexo e intrigante que o herói do Hesse.

Agora, uma mudança de foco nesta minha improvisada opinião literária. Ainda me é mais intrigante considerar, nisso tudo, a seguinte questão: se Clarice Lispector, tendo lido mais Dostoievski que eu, à sua época embasbacou-se diante de “O Lobo da Estepe”, por que será que a mim, digamos leitora ideal deste dia 6 de abril do improvável ano de 2009, ele não convence totalmente?

Ora, é porque já foi assimilado. Falo por minha própria experiência: o livro de Hesse é bem feito, emociona, critica. Mas — e aqui vem uma pretensão stricto sensu, mas que eu consciente afirmo após ter cutucado muito o assunto — não há nada ali que eu já não conhecesse, seja através de outras literaturas, seja buscando autonomamente em minha própria psicologia.

Eu, L. M., 20 anos, imersa nesse desastroso século XXI, sou um lobo da estepe; percebo suas angústias, sou capaz de compreendê-las (estou em pleno processo); as que sobram em mim são outras que não as dele, conquanto filiadas a elas, mas os tempos são outros e o Lobo da Estepe de Hesse já não soa a meus ouvidos como novidade, desconforto, denúncia. De fato, em seus monólogos mais emocionados eu caio é no riso…

O protagonista, e em última análise o homem real por trás do Lobo da Estepe de Hesse, já se tornou um clichê… O personagem, ao ser composto pelo autor em traços tão simples e grossos, soa para o leitor contemporâneo como uma caricatura insossa.
O que não acontece com os de Lispector, de quem é possível afirmar que abordou os mesmos problemas que Hesse… Só que nos lobos da estepe dela há plurivalências de base, tanto em seu conteúdo psicológico quanto em sua forma de apresentação. Já o herói de Hesse, concluo, ficou datado. Faltaram-lhe dimensões em profundidade, faltaram-lhe os contornos daquelas arestas que nunca, em ser nenhum, se fecham, e que transformam os seres da ficção em seres eternos, tanto no mundo dos livros quanto no dos homens.

Permalink 3 Comments

Cinco quadras vazias

April 1, 2009 at 2:12 am (1)

O choro vem perto dos olhos para que a dor transborde e caia.
O choro vem quase chorando, como a onda que toca na praia.

- Cecília Meireles

***

Meus olhos apenas doem.
É como se pesassem as penas do mundo
na balança frouxa da apatia
e intumescessem-se, exauridos.

Eles nunca estão sós.
É o teu reflexo em seu vidro embasbacado,
são minhas memórias tuas soterradas
em seu sótão proibido.

E nenhuma lágrima cai.
Meus olhos se ensimesmam nessa dor
total que envolve todo ser ausente
a si mesmo em presença dessa dor.

Olho meu dentro como a um invisível
ser que me habitasse escuramente.
Desconheço-o, como a tudo que é outro,
e quedo-me impassível diante ao choro rente

À pálpebra vergada sobre o espelho
em que a tua imagem naufraga demente.
Meus olhos apenas se doam:
seu silencioso pesar, sua cristalizada torrente.

Permalink 4 Comments

“Passa, lento vapor, passa e não fiques…

March 25, 2009 at 10:22 pm (1)

Passa de mim, passa da minha vista,
Vai-te de dentro do meu coração.
Perde-te no Longe, no Longe, bruma de Deus,
Perde-te, segue o teu destino e deixa-me…
Eu quem sou para que chore e interrogue?
Eu quem sou para que te fale e te ame?
Eu quem sou para que me perturbe ver-te?
Larga do cais, cresce o sol, ergue-se ouro,
Luzem os telhados dos edifícios do cais,
Todo o lado de cá da cidade brilha…
Parte, deixa-me, torna-te
Primeiro o navio a meio do rio, destacado e nítido,
Depois o navio a caminho da barra, pequeno e preto,
Depois ponto vago no horizonte (ó minha angústia!),
Ponto cada vez mais vago no horizonte…,
Nada depois, e só eu e a minha tristeza,
E a grande cidade agora cheia de sol
E a hora real e nua como um cais já sem navios,
E o giro lento do guindaste que, como um compasso que gira,
Traça um semicírculo de não sei que emoção
No silêncio comovido da minh’alma…”

***

Ode Marítima, parágrafo final. Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa.

Permalink Leave a Comment

Para dormir & Nota prévia

March 19, 2009 at 1:00 am (1, Poesia)

Nota prévia:

Sim, eu tenho escrito muita poesia. Tentativas, evidentemente, que nem sempre se consumam nos poemas que eu gostaria de escrever, poemas necessários. Os que tenho postado aqui são os que já têm uma forma pronta mais ou menos, mas mesmo nestes ainda mexo quase todos os dias. É terapêutico construir poemas (obrigada, Emmanuel). O blog é por assim dizer o meu atelier aberto…

Tenho pensado que escrever poesia nos dias de hoje não tem como passar de um hobby, mesmo. Por questões de sociedade etc — não, não aguento mais falar disso (pensar também, mas controlar o pensamento vocês sabem como é). Enfim, o bom mesmo era escrever romance. Ah, meus botões e eu temos concluído mais e mais que a forma literária para dizermos o que queremos é a prosa, o conto e o romance. Me dêem mais trinta anos de instrução (para lutar contra as tendências acefálicas da minha conjuntura histórico-sócio-intelectual) e verão se esses poeminhas não se tornam na minha obra secundária, na cerejinha do bolo da minha masterpiece.

***

Para dormir

Lá fora a antemanhã tão longínqua! a floresta tão aqui ante outros olhos meus!

- Fernando Pessoa, “Na Floresta do Alheamento”

***

Desenterrar-se do calor que estia.
Talhar-se a ferro frio
no acolchoado espaço da penumbra.

Abraçar como entes sãos: a brusca cama,
a demorada colcha de crochê, os frisos
da cortina — a grossa vigília se impele.

Eu — posta de matéria sem afecções.
A sensação de mim é um golpe seco
que ecoa curtamente pelas dimensões

Da alcova solitária. Disperso
impertinências. Não sei discernir formas,
talvez se há conteúdo nessa ausência

De finitudes. O espaço se prolonga
em minhas dobras, que abanam em gotas
os sons que simulam as finitudes.

Se fecho os olhos, penso coisa corresponder
a essa coisa. Mas abro-os e vejo
que era senão a madrugada erguendo-se

Em redonda flor, em rósea réstia
de delírio ao redor de minha sombria mente.
Madrugada de sonho e toda de alquimias.

Embaixo de seus panos sou como um tear:
teço as sombras da noite nas sobras do dia
e, no ímpeto flébil da unção, desperto torno

O homem febril ao já porvir claríssimo:
para dormir, adulo meus olhos com acalantos
débeis. Eles ignoram que despertarão

Numa imensidade cheia de caminhos.
Mas sua alma de olhos está no que vêem:
esse escuro cheio de caminhos

sensíveis, ininteligíveis.

Permalink Leave a Comment

Noturna s/nº

March 14, 2009 at 3:21 am (1)

Noite, cavalo vago
- Vitor Nina

***

Há uma noite inteira, imensa, à minha frente
E diante dela eu tremo toda,
Como uma virgem diante do seu primeiro amante,
Como uma esposa diante do seu mesmo marido de há anos —
Apaixonadamente… — Desesperadamente…

Permalink 4 Comments

Sol negro

March 9, 2009 at 12:02 am (Poesia)

Na minha voz
trago a noite e o mar
O meu canto é a luz
de um sol negro e… dor
É o amor, que morreu
na noite do mar

- Caetano Veloso, na voz de Maria Bethânia

***

I

Preciso que me abraces com mais força agora:
as nuvens estão em silêncio, a lua encoberta dormita.
Sou uma folha caída, sou um grão de terra entre as ervas.

Preciso que me vejas mais distintamente agora,
que estou na altura do chão,
confundindo-me com todas as leviandades sãs da natureza,
com as suas ninharias mais laboriosas.

Em verdade, é que o simples deixou-me:
estou pequena como um começo de universo,
compõem-me fibras de galáxias desconhecidas,
estou densa e repisada como um minúsculo deus.

Preciso que recebas isso.

Não me rejeites: ama-me assim,
quando não sou mais que trêmula carne doída,
ama-me assim,
para que teu amor me reerga simples e límpida,
igual apenas àquela
doce, imperfeita mulher
que alisava com as mãos os teus belos cabelos.

II

Não desvia teus olhos da minha luz
negra. Te dou as lágrimas em minha tez
para beijares, demoradamente…

Consome a minha dor — me esgota
em tua boca. Toca
o meu corpo imperfeito com a tua mente.

Oh sente-me em teu peito!
Se ainda pulso é porque um dia amaste,
não minha coragem, não a minha mente,
mas a minha dor:
pois me quiseste mesmo pequenina
e tomaste em teus braços o mínimo animal
de insânias fatalmente ferido;
porque lançaste brancas pétalas
para lavar minhas cicatrizes;
e sentiste o cheiro de meu sangue
e nunca maldisseste meu riso.

Oh segue livre — aonde vou
estás comigo. Aonde irás
terás a bênção
do anjo negro que tu amaste
como a um abismo.

Permalink 2 Comments

« Previous page · Next page »